sábado, 31 de julho de 2010

Terapia sine die

Terapia sine die.
Terapia noite e dia.
Terapia nunca termina.
Terapia não tem cópia.
Terapia com utopia.
Terapia literária.

Esta é a última postagem de uma experiência de oito meses blogando sobre livros, autores, descobertas biblioterápicas. O conteúdo ficará disponível aqui, mas também no meu site.

Abraços a todos e, sempre, muitas leituras!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Paradoxos terapêuticos

Há vários anos, volta e meia, retorno às páginas de G. K. Chesterton (1874-1936). Autor de paradoxos, como este: "Talvez não exista nenhuma outra coisa de que extraímos menos verdade do que os truísmos; em especial quando eles são realmente verdadeiros." (O homem eterno, pág. 138)

O paradoxo quebra nossos paradogmas. O paradoxo é uma verdade que entra em nossa mente por uma janela diferente. O paradoxo não nos deixa parados. Por isso é terapêutico.

Referindo-se ao Império Romano, escreve: "De fato nas aparências o mundo antigo ainda estava no auge de sua força: é sempre nesse momento que a fraqueza mais profunda se instala." (O homem eterno, pág. 222)

Estou citando livro recentemente publicado pela Mundo Cristão, em cuja capa aparece o oito do infinito: O homem eterno. Tradução muito boa, aliás, garantindo a fluidez do estilo chestertoniano.

domingo, 25 de julho de 2010

Dia do Escritor

25 de julho foi definido como Dia Nacional do Escritor por decreto governamental, em 1960, após o sucesso do I Festival do Escritor Brasileiro, organizado naquele ano pela União Brasileira de Escritores, por iniciativa de seu presidente, João Peregrino Júnior, e de seu vice-presidente, Jorge Amado.

Passei o Dia do Escritor... escrevendo! Nada mais apropriado e terapêutico. Atualizei blog etimológico, revisei, traduzi, e li também, textos próprios e alheios. Os próprios, como se fossem alheios. E os alheios... como se fossem próprios.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Os normalpatas...

Há pessoas que vivem num ambiente tão normal... tão certinho... que terminam se tornando normalpatas!

Corrida selvagem, de J. G. Ballard (José Olympio Editora, 2009), relata um caso desses, em que os filhos normais, felizes (artificialmente felizes), bons cidadãos, bons leitores, bons esportistas, bons alunos... terminam por se tornar o contrário do que seus pais, tão amorosamente controladores, esperavam.

Tão... tão perfeitos, tão vigiados, tão acompanhados, tão encorajados, vítimas da compreensão e da tolerância!

Alerta! Uma idealização educacional pode sufocar a autoexpressão. Na história, um livro de Piaget aparece mutilado.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Marteladas filosóficas

Há momentos em que um pouco de iconoclastia não faz mal. Good bye, Platón, de Josep Muñoz Redón, é filosofia com marteladas. Um passeio entre pensadores de todos os tempos e estilos, conversando com um e com outro sobre os estilhaços, os fragmentos, os restos.

Em situações de ausência (sem Deus, sem trabalho, sem alma, sem corpo, sem esperança, sem sexo, sem dinheiro, sem poder...), o que pensa quem continua a pensar?

Pois este pensar é terapêutico. E ficar lendo-pensando, em solidão, sem nada. Aquela velha pergunta, lembram-se? Que livro gostaria de ter em mãos se você se visse, de repente, numa ilha deserta? Diferentes náufragos deram diferentes respostas:
  • Chesterton falou em um manual que ensinasse a construir botes.
  • Roland Barthes lembrou-se de Robinson Crusoé... talvez para não repetir as ações do protagonista.
  • Umberto Eco disse que levaria a lista telefônica, para inventar milhões de histórias com todos aqueles nomes.
Eu estou pensando em levar este livro, A ilha deserta, de Deleuze...


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Problemas monstruosos... ou apetitosos!

O filme Onde vivem os monstros (2009) expande a história do livro de Maurice Sendak (publicado pela  Cosac Naify, 2009). Numa certa altura do filme, Judith, uma bela monstra, faz a afirmação terapêutica:

You know what I say, if you've got a problem? Eat it!

Mais terapêutico impossível. Se você tem um problema, coma-o! Contar histórias conduz Max, o menino protagonista, ao conhecimento dos conflitos humanos: ciúmes, solidão, amor, medos, raiva, tudo junto. Coma-os!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ler o nosso pai...

Minha esposa, Ana Lasevicius, dirigiu, participou e editou esta notícia terapêutica. Apreciem!

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O livro em questão é de Humberto Werneck (1945 - ), jornalista e escritor mineiro.


Terapia econômica

"A literatura é uma terapia muito econômica, sobretudo se considerarmos a possibilidade de utilizar nossas bibliotecas. Além do mais, como existem milhares de livros, nós não somos obrigados a tomar nenhum remédio até o fim. Se acontecer a síndrome da página 3 ou 21, uma sonolência repentina, uma dificuldade de concentrar a atenção, basta deixar este livro de lado e buscar outro. Não há por que fazer do prazer um sacríficio."

Angela-Lago (1945 - ), escritora e ilustradora.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pensamento terapêutico do dia

"A leitura faz bem à saúde."


Escritora Cristina Norton (1948 - ), autora de vários livros, dentre os quais: Menina modelo, Crimes de mulheres e A casa do sal.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Descobrir um autor

Descobrir, retirar o que encobre, levantar a pedra e encontrar o formigueiro, entrar num sebo e escavar, abrir um livro, ou descobrir um autor entre milhares... tudo isso é animador, faz pensar, é terapêutico.

Max Stirner (1806-1856) eu não conhecia, embora tivesse um livro dele perdido entre minhas estantes: O falso princípio da nossa educação (Editora Imaginária, 2001). Insatisfeito com os modelos educacionais vigentes em sua época, propõe que o Saber morra e ressuscite como Vontade, e esteja a serviço da personalidade criativa de cada indivíduo.

O livro que fundamenta suas ideias é O único e a sua propriedade, publicado em 2009 pela Martins Fontes. Acusam-no de niilismo, de um egotismo exacerbado. Nietzsche inspirou-se nele. Não precisamos desprezá-lo nem idolatrá-lo. Sorver de suas ideias o que nos ajude a "tocar" a vida. A vida intangível. Projetar e projetar-se. Se há o não verdadeiro (das Unwahre) com relação à educação, é porque temos o dever de encontrar o princípio verdadeiro...

sábado, 3 de julho de 2010

Ir fundo!

Terapia leva à ação. O otimismo não se faz apenas com palavras, mas também com ações eloquentes. A linguagem dos fatos. Os gestos que se tornem fatos, e fatos que afetem. O afeto precisa de palavras. E de atos concretos.

É preciso ir fundo. Gary Vaynerchuk é quem diz, em seu livro — Vai fundo! (Agir, 2010). Acreditei no autor quando ele deixou bem claro que na vida de um empreendedor da Idade Mídia a família vem em primeiro lugar. Depois vem a batalha profissional. E essa batalha, realista e entusiasmada, deve basear-se no autoconhecimento e na busca do melhor. Gostei. O autor manda uma mensagem para o Brasil.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O impossível fogo para os livros

Amar os livros é uma terapia. (Qualquer amor verdadeiro é uma verdadeira terapia...) Mas o amor aos livros é especialmente terapêutico por ser um amor a tudo quanto é livro, um amor geral, infinito, generoso.

Há um conto de William Saroyan (1908-1981), Um dia frio, publicado no livro O jovem audaz no trapézio voador e outras histórias (Paz e Terra, 2004), em que o personagem conta o frio que sentia em San Francisco, e que estava tentando escrever apesar do frio, os dedos congelando. Um escritor pobre, sentindo um frio danado, sem aquecedor.

E então lhe surge a ideia de queimar meia dúzia dos seus livros para esquentar o quarto. E começa a procurar alguns livros na sua biblioteca de quinhentos títulos. E não tem coragem de queimar nenhum. Nem mesmo os de ficção barata. Nem mesmo uma obra de anatomia, em alemão, língua que ele não entende, mas a verdade é a seguinte: "se você tem qualquer respeito pela mera ideia de livros, pelo que eles significam, se você acredita em papel e impressão, não pode queimar qualquer página de qualquer livro."

E este amor que não consegue destruir nem mesmo os livros inúteis... é um belo amor, um amor terapêutico. Queimar os livros é uma forma de queimar pessoas. Nenhuma pessoa deve ser destruída. Nenhum livro deve ser destruído...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Terapia socrática

Mestre Sócrates inventou a terapia filosófica: pensar com rigor, dialogar com humor, perguntar, conhecer-se, ironizar, brincar com as palavras. Terapia em grupo, em clima de banquete (simpósio), abordando todos os temas: a linguagem, a justiça, a coragem, a política, o amor etc.

Novos diálogos socráticos sobre temas contemporâneos foram criados pelo professor Peter Kreeft, que conheci ao ler um livro seu, O diálogo, no qual C. S. Lewis, John Kennedy e Aldous Huxley, que morreram no mesmo dia 22 de novembro de 1963, conversam sobre a vida e a morte.

O autor inventou agora novas conversas. Sócrates conversando com Sartre, Marx, Maquiavel, Kant, Descartes... Captou muito bem o estilo socrático. Estou traduzindo a conversa do pai da filosofia ocidental com o fundador do comunismo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

7 princípios

Esta reflexão sobre terapia literária me ajudou a definir 7 princípios, quanto ao modo de aproximar-me de livros e autores:

1º) Não idolatrar nenhuma escola literária, nenhuma linha de pensamento, nenhuma doutrina, nenhuma obra-prima, nem o mais genial dos escritores.

2º) Não desprezar nenhum autor, nenhuma linha de pensamento, nenhuma doutrina, nenhuma obra, por pior que pareça.

Estes dois "nãos" me protegem (assim espero) dos fanatismos e preconceitos.

Os 5 princípios restantes são positivos:

3º) Descobrir escolas literárias, estilos, linhas de pensamento, doutrinas, obras-primas e obras ruins, escritores que pareçam geniais ou não, descobrir, descobrir.

4º) Selecionar ideias, imagens, argumentos, metáforas, conceitos, passagens, momentos, intuições de tudo aquilo que eu ler.

5º) Verificar em que medida as ideias, imagens, argumentos etc. que eu li são carregadas de beleza, inteligência, sensibilidade, força, boa-fé.

6º) Articular as ideais, imagens, argumentos, metáforas etc. entre si.

7º) Incorporar novas ideais, imagens, argumentos, metáforas, conceitos etc. ao meu SPC (Sistema Pessoal de Convicções).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O perigo da única história

Terapia se faz quando ouvimos várias e variadas histórias. Ter uma única história sobre alguém, sobre um país, sobre uma realidade... é caminho seguro para a doença do fanatismo, para a epidemia do preconceito, para a visão distorcida e limitada.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie faz considerações sobre esse perigo. E fala do antídoto!



(Se precisar de legenda, selecione o idioma na base do vídeo.)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Onfray, escrita e terapia

Ler autores que sentem raiva. A raiva alimenta a escrita. A raiva e seus raios. A raiz da raiva afunda e retira da alma o sumo, a soma. Michel Onfray (1959 - ) sente raiva, escreve com raiva, pensa com raiva. Raiva viva, seiva.

Depois da raiva é possível falar em serenidade. Depois de externar sua raiva contra coisas e pessoas, contra religião e sociedade, Onfray escreve:

"Sereno, sem ódio, ignorando o desprezo, longe de todo desejo de vingança, ileso de qualquer rancor, informado sobre a formidável potência das paixões tristes, não quero nada mais que a cultura e a expansão dessa 'potência de existir' — segundo a feliz fórmula de Espinosa encastoada como um diamante na sua Ética. Somente a arte codificada dessa 'potência de existir' cura das dores passadas, presentes e por vir." (A potência de existir, pela WMF Martins Fontes, 2010, pág. XL)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Impurezas saudáveis

A sabedoria está em lavar as mãos em água suja, segurar serpentes e não ser picado por elas, expulsar os demônios da depressão, entender novas linguagens, beber venenos e sair fortalecido, experimentar as doenças e não adoecer.

O contato com as impurezas que há nos livros amplia nossa consciência, nos torna menos vulneráveis, mais humanos e mais realistas. Percebo esse princípio nas linhas e entrelinhas de Não contem com o fim do livro (Editora Record, 2010), diálogo genial entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière.

E é de Carrière o seguinte comentário, aplicável aos nossos intentos terapêuticos:

"Existe agora um vinho que apresenta essa qualidade de ser 'não filtrado'. Preserva todas as suas impurezas, que às vezes contribuem com sabores muito particulares que a filtragem, na sequência, lhe subtrai. Talvez tenhamos saboreado na escola uma literatura demasiadamente filtrada e, por esse motivo, carente de sabores impuros." (pág. 94)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O livro perdido

E quando queremos encontrar um livro... e ele está dentro de casa... mas não conseguimos localizá-lo? O livro está aqui, posso sentir sua presença oculta, posso ouvir seu silêncio, posso intuir sua brincadeira de mau gosto.

É terapêutico perder um livro dentro da própria casa? Procurá-lo é terapêutico. Imaginá-lo de novo em nossas mãos. Sonhar com seu retorno. Inútil busca. Causa perdida. Mas tão necessária busca.

O livro perdido me faz achar outras coisas. Sua ausência está gritando. Estou mobilizado na saudade funda. Sem sabedoria e sem esperança, faço deste livro meu filho pródigo. E quantas festas eu farei quando ele aparecer outra vez!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Futurar

Ver o futuro é um desses impossíveis necessários da vida. Mas tentar não faz mal. Faz bem, até. Futurar... Podemos praticar, como já se fez outrora.

Tenho em mãos o Perfil do futuro, de Arthur Clarke. Em inícios dos anos 1960, o autor de 2001: uma Odisseia no espaço, viu o celular com clareza:

"Chegará o tempo em que chamaremos uma pessoa em qualquer lugar da Terra simplesmente discando um número. A pessoa será localizada automaticamente, quer esteja em pleno oceano, no coração de uma grande cidade ou atravessando o Saara. Este dispositivo sozinho pode mudar as formas da sociedade e do comércio tanto quanto já fez o telefone, seu primitivo antepassado."

Outro escritor. Antes disso. Em 1909, E. M. Forster retrata o que aconteceria um século depois no seu conto The machine stops. Ou seja, agora. Pessoas vivendo isoladas em pequenas células (refere-se a um small room), podendo comunicar-se com qualquer pessoa no mundo por meio de um pneumatic post... e vendo o rosto do outro numa blue plate, uma placa azul...



Exercícios dessa natureza nos levam longe demais. E isso é outra forma de terapia literária. Transcender o presente. Prever o imprevisível.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Doar é viver

viver
é um exercício
constante
de doação

mesmo
aquelas pessoas
que nos parecem
não doar nada

al
go
dão

Chama-se "do ar" este poema. É de Múcio Góes, pernambucano, que descobri ontem, conversando com meu amigo Prof. Romão. Algo as pessoas dão. Doar é viver. É terapia pura.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Claramente confuso

Boa parte da terapia literária consiste em nos fazer pensar com clareza. Mesmo a confusão, claramente vista, passa a ser uma forma de se "desconfundir". Mesmo o pensamento confundente (como o das crianças) torna-se sinal e fonte de lucidez, se claramente confundente.

Por exemplo, quando perguntaram à minha filha: "Qual o seu nome?". E ela respondeu: "Meu nome é Lígia.com.br". Ela confundiu realidades. O virtual e o real. O nome e o endereço virtual.

Os escritores confundem ciência e ficção. O livro A máquina do tempo, de H. G. Wells, confunde imaginação e realidade, passado e futuro, possibilidade e impossibilidade.

Mas que sejam fusões e confusões esclarecedoras. Somos seres cheios de conflitos, dúvidas, ou, pior, cheios de vazio. Mas constatar tudo isso, ler sobre isso, e lidar com isso... nos faz sobrevoar, entrar na máquina da visão, atravessar os tempos, tomar decisões.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Terapia de choque

Ferréz (1975 - ) é terapia ferrada. Autor que não gosta de usar anestesia. Cronista de um tempo ruim (Selo do Povo, 2009) promove terapia de choque.

A crônica "Matemática de favela" começa assim:

"Eu fui fazer um pacto com o diabo, mas ele disse pra entrar na fila, número 432 era minha senha."

Outra, "Vida jovem em promoção", em que leio:

"Um dia a gente vai entender por que o nosso ensino é atrás de tantas grades, por que é mais barato sermos treinados segurando uma pistola e matando outro periférico do que estudando algo útil."

Ferréz nos diz que estamos ferrados. E eu penso que, mesmo os que se consideram a salvo, fora da periferia, fora da região ferrada, ferrados igualmente estão. Talvez até mais.

sábado, 22 de maio de 2010

Autoterapia

A terapia literária é eficaz na medida em que seja autoterapia. Durante a leitura, posso ter um auto-insight. Uma luz se desprende das páginas e recai sobre meus medos e ambições, esperanças e desilusões, euforias e humilhações, amores e solidões, problemas e intenções.

Lendo para valer, suspendem-se as lamentações. A leitura ativa a auto-observação. A autoanálise. Sem que eu o perceba...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Baudrillard terapeuta

É terapia não entender direito. Quanto entendemos tudo... péssimo sinal! Não entender significa que estamos a caminho, que ainda vamos entender. Ou não. Que no mundo há mais beleza, inteligência e mistério do que podemos reunir em nossas mãos.

Não entender um autor é bom. Jean Baudrillard (1929-2007) incomoda, ultrapassa modas, corda que enforca e me puxa do buraco. Na Idade Média, o mundo se equilibrava entre Deus e o demônio. Na Idade Mídia, entre o excesso e a falta, o consumo e a denúncia, entre o medo e a anestesia.

Baudrillard, um novo Nietzsche. O pensador alemão foi dinamite no fim do século XIX. Sua força arrasou quarteirões. Baudrillard, dinamite no fim do século XX. Vamos ver os estragos que ainda fará. Os bons estragos.

São dele essas palavras: "O crime perfeito, o único, é o suicídio. Porque é o único e sem apelação, ao passo que o assassinato deve se repetir sempre. Porque realiza a confusão ideal do carrasco e da vítima."

Quem tiver ouvidos para entender... não entenda!

sábado, 15 de maio de 2010

Mais humano

O objetivo das terapias é nos tornar mais humanos, desendoidar-nos. A poesia é realista. Roland Barthes afirma que toda a literatura é realista porque sabe algo do ser humano. E algo que a ciência, tão pouco sutil, não consegue discernir.

Reencontrei hoje cedo o poema "Tarefa", de Geir Campos (1924-1999) . Foi terapia. É terapia. Porque me sinto humanizado. Porque a terapia não é egoísmo. Porque o egoísmo endoidece. Porque o nada endoidece. Porque o fruto amargo não é amargo à toa. Porque viver o esquema falso é nosso dia a dia, mas para não endoidecer de vez eu preciso saber que é um esquema falso. E avisar. E aqui está o poema, para quem quiser saborear:

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Terapia literária infantil

Também as crianças necessitam de terapia literária. Menos do que os adultos, mas necessitam. Para não ficarem "adulteradas"... como muitos de nós. Para desenvolverem imaginação e memória, como explicava o escritor João Ubaldo Ribeiro, ontem, em sua crônica No tempo do livro (O Estado de S.Paulo, 9 de maio):

"Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha), brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis, organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos outros, contanto que acreditassem nas nossas – era tudo a verdade de nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós, afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os livros, não precisávamos de mais que eles."

sábado, 8 de maio de 2010

A razão literária

A literatura é mais filosófica do que a própria filosofia. Produzir e ler romances, contos, poemas... é uma forma de conhecer que envolve todo o nosso ser e não apenas o raciocínio. É uma forma de conhecer intensamente.

Não se trata apenas de conhecimento documental: a vida dos gregos em Homero, em Sófocles; a vida medieval em Chaucer, em Dante, a vida no século XIX brasileiro em Machado, em Alencar...

O conhecimento da realidade humana é condição essencial para o fazer literário e resultado prazeroso/doloroso da leitura. A relação entre a vida íntima e as aparências, os anseios humanos proibidos, o sonho iluminando e traindo são temas fundamentais da literatura, entre outros.

E aqui está a dimensão terapêutica da literatura. É claro que na literatura não encontraremos aquela sistematização, aquela organização lógica, como, em princípio, se espera de um tratado filosófico, de uma investigação psicológica. Esta fragilidade, no entanto, é a força da literatura.

Todas as nossas faculdades serão mobilizadas. Ao pensar literariamente, não pensamos apenas. A razão literária inclui as desrazões nossas. Gregor Samsa e Emma Bovary, Quixote, Macunaíma e Capitu, Ulisses e Pinóquio dramatizam nossas escolhas, concretizam nossos dilemas, causam surpresas, instalam medos, despertam esperanças, matam ilusões, provocam decisões, inspiram atitudes...

Podemos beber nas páginas da literatura algo que a ciência, a antropologia e a sociologia não podem nos oferecer. E estas outras instâncias do saber se beneficiam quando se abrem para ouvir o que os escritores e os poetas pensam. Contanto que saibamos como este pensamento é diferente do pensamento "normal"...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A arte de viver

Conheci Viktor Salis numa palestra e tenho alguns livros seus. Ouvi-lo é uma terapia. Mestre da arte de viver, publicou sobre o belo, o nobre e o justo. Sua visão é arcaica, no sentido positivo e revitalizador da palavra.

Uma entrevista de Viktor Salis, como aperitivo:

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Um pouco mais de Erasmo

No final da vida, com seus 70 anos bem lidos, Erasmo de Rotterdam ficava repassando as cartas que recebera dos amigos, muitos deles mortos, e às vezes em circunstâncias violentas, como aconteceu com Thomas Morus (1478-1535).

Ler uma carta antiga pode ser boa terapia, repensar o passado, revisitar lugares, reconversar. Mistura de nostalgia e saudade (não são a mesma coisa!), e a chance de recompor o todo da vida — analisar e sintetizar a existência.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mais Erasmo

Ler Erasmo e sobre Erasmo. O de Rotterdam. O que amava os livros. O escritor atento. Um tanto elitista. Avesso a conflitos. Harmonizador. Homem do limite. Entre a decadência do final da Idade Média e a impaciência do início do Renascimento. Como faz ver Stefan Zweig, um humanista que fracassou e triunfou.

Seu fracasso é terapêutico. Aprendemos que é impossível vencer com palavras a violência, a estultícia, o fanatismo. Erasmo perdeu o jogo. Sua liderança intelectual e espiritual foi substituída pela intolerância de Roma e pela intolerância de Lutero. Aprendamos com ele a perder o jogo.

Mas também é terapêutico o seu triunfo. Ao longo de 5 séculos, seus livros continuam vivos. Em especial o Elogio da loucura. Lá, Erasmo confronta nominalistas, tomistas, albertistas, ockamistas, escotistas... e o faz com a voz da loucura, uma forma inteligente de entender as sutilezas da estupidez humana, da nossa estupidez.

sábado, 1 de maio de 2010

Erasmo sem nenhum marasmo

Terapêutico é encontrar um autor com o qual nos identifiquemos, tanto no que diz respeito aos seus textos como no que se sabe de sua vida. Tenho antiga identificação com Erasmo de Rotterdam (1466-1536).

O meu livro Elogio da leitura é uma homenagem (um plágio criativo) ao seu Elogio da loucura. Sinto-me atraído por sua maneira tolerante de ser em meio às tensões intelectuais da época. Imagino ter um pouco do seu espírito. E algumas coincidências são interessantes. Ele foi revisor e tradutor. Eu também. Ele vivia a religião do livro. Eu também. Ele era professor para sobreviver. Eu também.

Erasmo nasceu em 1466, às vésperas de um 1500 cheio de fantásticas e terríveis mudanças; eu nasci em 1962, às vésperas de um 2000 igualmente fantástico e terrível. (Morrerei, então, em 2032, quando tiver os mesmos 70 anos de idade com que partiu desta vida o humanista Erasmo?)

Estou lendo Erasmo de Rotterdam: triunfo e tragédia de um humanista, de Stefan Zweig. Conta-nos Zweig que seu biografado era um ardente e fiel amante dos livros, entre outras razões porque eles não são barulhentos ou violentos.

De fato, a terapia literária é silenciosa. O silêncio livral (que nos livra de tantas prisões) acaba com nossos tédios e marasmos. Silêncio repleto de palavras...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Toda leitura é leitura terapêutica?

Será terapêutica toda leitura que mexer na água parada, jogar fora copos rachados, arrumar a cama, trocar a roupa, tomar um bom banho, der um passeio, limpar gavetas, lavar a louça acumulada, tirar a poeira, enfim...

Como aquela frase que li, faz muito tempo, num muro...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pedofilia e bibliofilia

Se o Vaticano me perguntasse o que fazer para combater a pedofilia dentro da Igreja, eu responderia que poderia combater esse problema com a bibliofilia. Os bispos, se querem formar bem os padres de suas dioceses, têm de propiciar e exigir leitura, propor o estudo como prática real, o amor aos livros (também) como terapia.

É uma resposta ingênua, certamente. E quem sou eu para aconselhar uma instituição com 2 mil anos de atividade? Mas prefiro a ingenuidade às respostas evasivas, maliciosamente evasivas.

A leitura. A sabedoria. A reflexão. A brincadeira com as palavras. Um seminarista que esteja sempre com livros nas mãos não terá tempo para que sua cabeça se ocupe com o que não deve. Um padre com uma boa biblioteca poderá ter muitas noites de prazer literário.

Melhor ser possuído pelo amor aos livros do que pelo fogo da solidão, pela carência afetiva, pela vontade de dominar o mais fraco, de seduzir o menos atento.

Em vários textos e entrevistas, Bento XVI, mesmo quando ainda não era papa, dizia com clareza que "nem todos os que se dizem cristãos o são realmente". Isto supõe pensar num cristão autenticamente cristão, num cristão fiel ao compromisso batismal. Quanto aos sacerdotes pedófilos, podemos dizer algo semelhante: nem todos os que foram ordenados sacerdotes o são realmente.

Mas voltemos à bibliofilia como caminho terapêutico. Proponho que os seminaristas e os padres leiam, no mínimo, 8 horas por dia. E que leiam romance e poesia, contos e novelas, teatro e biografias, história e fantasia, não só teologia e filosofia.

E que leiam sobre o amor, sobre a dor, sobre os "impossíveis necessários" da vida, e que, leitores compulsivos, cresçam em humanidade, e pratiquem sua catarse na leitura, e busquem a santidade entre as páginas de um Rosa, de um Drummond, de um Shakespeare, de tantos autores que ofertaram generosamente o seu corpo e seu sangue à humanidade inteira.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O velho Ortega

Ler certos autores meio esquecidos é renovar-se, muitas vezes. O pensador espanhol Ortega y Gasset é um bom e velho desencadeador de ideias. Em seu Meditação da técnica, publicado na década de 1930 na Espanha, e na década de 1960 no Brasil, escreve sobre a vida humana como uma criação literária:

"A vida humana seria então em sua dimensão específica... uma obra de imaginação? Seria o homem uma espécie de romancista de si mesmo que forja a figura fantástica de um personagem com seu tipo irreal de ocupações e que para conseguir realizá-lo faz tudo o que faz, ou seja, é técnico?"

Meditar é um "me ditar", um "ditar-me", um ditar a mim mesmo, um falar consigo mesmo... um falar comigo mesmo. Pensar o viver como tarefa, o viver como uma narrativa a criar, frase a frase, verso a verso. E meditar é bem o que Ortega está fazendo nesta foto...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Amare et amari

Em latim, amare et amari, amar e ser amado — esta é a "fórmula" da felicidade. Todas as terapias se resumem nisso. Portanto, o melhor remédio, o melhor tônico, a melhor vitamina, o melhor tratamento é deixar-se amar, e aprender a amar.

Literariamente, ler poesia de amor... e fazer poesia de amor:

QUANTO

Eu te quero tanto, você não sabe quanto,
para todos os quandos, em cada canto
do amor.

Eu te vejo pintada em todos os quadros,
eu me enquadro no círculo quadrado
do amor.

Eu te levo, no quarto, no quarteirão,
no quaterno, no quasar, no quamanho
do amor.

Eu te espero para além do enquanto,
encantado por teu encanto, quarado
de amor.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Frases terapêuticas

Pequenas doses verbais atuam terapeuticamente. Frases, aforismos, sentenças, máximas, ditos são capazes de evitar uma dor de cabeça, aliviar uma dor de fígado, ou de alma, cicatrizar feridas, baixar as altas pressões, tratar moléstias crônicas...

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe...

É impossível desagradar a todos...

As aparências enganam a quem se engana...

Uma consciência limpa... jamais foi usada.

Podemos colecionar essas pastilhas (nem sempre açucaradas), e ir tomando quando necessário. E sempre é necessário...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Medos e conhecimento

Medo azedo, que começa cedo e vai noite adentro, como se cura? Medo de ter medo, medo de não saber falar, cantar, pular, como se cura? Medo de penedo, de cair bêbedo, medo de bicharedo, como se cura? Medo de paralelepípedo, medo de segredo, medo de bruxedo, como se cura? Medo de dedo em riste, medo de folhedo triste, medo até de inofensivo chiste, como se cura?

Todo medo se cura quando se perde o medo do conhecimento — conhecer as horas e suas vírgulas, conhecer as notas musicais, conhecer o pulo do gato e o gosto do vinho, conhecer o tamanho da queda, conhecer as pedras do caminho, conhecer o medo que o prepotente tem de ter dor de dente como qualquer um pode ter um dia... conhecer, em suma, que tudo tem cura.

Até mesmo tem cura aquele medo profundo que há em todo mundo, o medo da coisa mais impura, da mais insana loucura, da mais escura tontura, da mais agoniante afogadura, de tudo o que é censura, baixura, queimadura, medo de tortura, tesoura abrindo a alma da nuca à cintura. Até mesmo tem cura esse medo de tamanha tremedura.

Medo se cura com conhecimento do medo, conhecimento do próprio abatimento, conhecimento do açoitamento, de cada momento da vida em seu doloroso andamento, conhecimento das artimanhas, das ciladas, de tudo o que se esconde no quase nada, conhecimento dos outros e, sobretudo, desse outro em que mora o medo, e esse outro sou eu mesmo.

E como se faz esse autoconhecimento?, todos perguntam, morrendo de medo. Não, não é no espelho que eu me conheço, nem pedindo aos outros opinião. É nos livros que eu leio, é neles que eu me conheço, é neles que perco toda a ilusão, tendo consciência da ciência que tenho, tendo uma visão sobre a visão que vejo, escrevendo sobre o que eu leio nas minhas leituras — e esse conhecimento cura!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Terapia, livros e cristianismo

Ler é terapêutico. Qualquer livro pode ser instrumento e caminho para autoconhecimento, descoberta do mundo, revelações, desilusões, novas decisões.

Há um sem-número de livros inspirados pelo cristianismo, sejam ortodoxos, heréticos, superficiais, instigantes, equivocados, geniais... Milhares, centenas de milhares, milhões. Faz dois mil anos.

O cristianismo é terapêutico? Livros inspirados pela vida e pelas palavras daquele homem, daquele estranho e amável homem, daquele piedoso (e irreverente) judeu... podem ser livros terapêuticos.

Um deles é da autoria de um estranho e amável norte-americano, Brennan Manning. Chama-se O impostor que vive em mim (Mundo cristão: 2006).

Não é um livro comum porque é um livro de amor ao impostor. Odiar o impostor que há em mim pode levar-me ao suicídio. Amá-lo, pode levar-me a compreender outras coisas, coisas importantes sobre a realidade, sobre as pessoas, sobre o próprio fundamento de tudo...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O caracol

O primeiro aluno da classe, texto de Clarice Lispector, fala de um menino de nove anos extremamente ajuizado, solícito (empresta livros aos colegas da escola, ajuda-os a entender a matéria), cujo segredo é um caracol. Clarice repete que o segredo dele é um caracol, antes de finalmente contar o porquê...

"Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão." (em: Para não esquecer, 1978)

Todo mundo tem o seu caracol. Ou é caracol de alguém. Não é possível ser bom o tempo todo. Alguém tem de pagar pela minha bondade, pela minha correção, pela minha solicitude. Alguém deve ser torturado para que eu continue sendo tão ajuizado. Esta captação de Clarice é certeira. Atinge em cheio a nossa humana condição.

E a terapia literária é isso, um atingir em cheio, um desmascarar, um deixar à mostra os segredos que nos sustentam.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Osmose livral

Uma forma de terapia literária é expor-se aos livros, sentir seu calor, seus cheiros, deixar-se impregnar da sua presença. Há quem tome banho de sol, banho de lua, banho de espuma, banho de mel, por que não banho de papel? Papel livral.

Entrar numa biblioteca, numa livraria, num sebo, permitir que os livros espiem você, olhem você, observem seus movimentos. Quando você olha, eles fingem que são apenas objetos inertes.


Aprendemos por osmose, deixando que os livros entrem por nossa pele até as entranhas. O que os autores inscreveram ali emite suaves ondas de silêncio. E este silêncio penetra até os ossos, e dos ossos vai ao cerne.

Livros enfileirados, amontoados, empilhados, apertados, desconfiados uns, mimados outros, abusados, apoiados uns nos outros, chorosos, sorridentes, manhosos, prepotentes, todos eles são terapêuticos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Leitura santa

Na Semana Santa, que leitura santa eu poderia fazer? Ou que livros santos, mesmo sendo igualmente pecadores, eu poderia ler?

Poemas santos, que falem do amor, e do ódio santo? Romances de paixão, que me crucifiquem? Textos santos, se é que existem tantos?

Certamente o Evangelho, que nunca será velho, renovadas cenas de dor e traição, fidelidade e tortura: "Tudo consumado!"

(La crucifixion blanche, de Marc Chagall)

Quinta santa, santa sexta, sábado santo, santo domingo, fazer terapia literária, o livro santo é amigo, é inimigo, mata e ressuscita.

Já sei: a via crucis do livro, carregá-lo dia e noite, sangrando nele para nele encontrar a salvação, o sentido, a palavra certeira: "Tenho sede!"

terça-feira, 30 de março de 2010

A velocidade poética

Terapia literária pode se fazer com doses mínimas de poesia, que são, em muitos casos, doses imensas.

Funciona assim: você pega um livro de poemas, como os poemas de Manoel de Barros. Abre ao acaso, acreditando nas forças invisíveis e imprevisíveis.

Então surgem coisas como:



Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.




E isso atinge o coração, o estômago, os rins, a musculatura das pernas, faz cabelo crescer novamente, interrompe soluço renitente, melhora a visão, elimina o ronco noturno e as tonturas diurnas.

Atinge para curar nosso corpo e nossa alma das falas e falácias que circulam o dia inteiro, entram em nossos pulmões e se instalam em nosso sangue.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Leitura no avião

Ler no avião, dentro ou fora,
é terapia veloz.

Hora de apertar os cintos,
sentir bem alto o que eu sinto.

Decolar, e sem demora,
que muitas nuvens me esperam.

Nesta asa da leitura
atravesso mares, ares.

Meus medos morrem,
no além das alturas.

E eu de novo neste voo
no livro enfim aterriso.

sábado, 20 de março de 2010

Livraria como lugar de terapia

Entrar numa livraria é, em si mesmo, um ato terapêutico. Livros, gente que gosta de livros, gente que trabalha com livros, cheiro de livro, livros em exposição, suas capas, a sensação de que o mundo é feito de palavras.

Pelo menos uma vez por semana, entre numa livraria. Fique ali durante quinze minutos, ou mais. Toque os livros. Leia algumas páginas ao acaso. Visite autores conhecidos. Conheça autores novos.

Não é preciso comprar nenhum livro. Basta ficar ali dentro, na livraria, sentindo a presença dos livros, ouvindo seus chamados silenciosos, sua ânsia de sair dali para conhecer o mundo.


Se algum livro conquistar você, compre-o então, tire-o dali, daquela prisão, leve-o para fora, prometa-lhe a leitura mais intensa, leve-o para a sua vida. O livro comprado é mais do que uma nova companhia.

Ao chegar em casa, deixe o livro descansar um pouco, não tenha pressa. Mais tarde, quando vocês dois estiverem juntos e puderem conversar em paz, esqueça de tudo, para lembrar-se do essencial.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nós, esquisitos?

Um livro puxa outro. Um autor nos leva a outro e esse outro a outros. A terapia literária vai por indicação, faro, intuição, risco. Cheguei assim, pulando de livro em livro, ao Esquisitologia, de Richard Wiseman (BestSeller, 2008). Livro para lá de esquisito.

Capa esquisita, proposta esquisita. Mas ainda mais esquisita é a vida cotidiana. Esquisitices do autor, obcecado por comportamentos esquisitos. Pelo senso de humor, pelas carências humanas, por nossa capacidade de mentir e outras coisas esquisitas.

Ou serei eu o esquisito dessa história? Ou será você? Ou todos nós? Seres esquisitos num mundo estranho. Gente esquisita que corre atrás de livros bizarros. E acredita que estudar a esquisitice é uma forma de encontrar a normalidade...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Poema aos livros quietos

Livros ao redor
crescendo do nada
ou de cada
menor pensamento


Livros quietos
calando histórias
cápsulas
do infinito

Livros soltos
no entanto juntos
enxame e bando
de paixões


Livros tantos
no meu ombro
anjos que guardam
e inspiram

domingo, 7 de março de 2010

Quem aprende? Quem ensina?

Uma pergunta que se desdobra: são os livros que nos ensinam ou somos nós que aprendemos com eles?

No contexto da terapia literária: são os livros que nos curam ou somos nós que nos curamos, fazendo uma leitura adequada deste ou daquele livro?

Concretamente, pensando nos clássicos: um Grande sertão: veredas, um Fausto, um Hamlet, uma Divina Comédia... nos curam de nossas loucuras, ou somos nós que desenlouquecemos ao ler os clássicos com a devida lucidez?

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Realidade cura?

Estou lendo homeopaticamente o livro Reality Therapy, de William Glasser, uma nova abordagem psiquiátrica. Sua proposta é que devemos nos preocupar menos com os traumas do passado e as insídias do inconsciente, concentrando-nos em dar conta de nossas legítimas necessidades psicológicas e espirituais.

O ser humano enlouquece, perde o rumo, desumaniza-se, quando não satisfaz duas necessidades fundamentais: amar/ser amado e respeitar-se/ser respeitado.

Glasser desaprova os rótulos "neurótico", "psicótico" etc. Antes de encerrar alguém na jaula de sua doença mental, devemos descobrir como essa pessoa foi irresponsável o bastante para não satisfazer aquelas duas importantíssimas e realíssimas necessidades.

É responsável, afirma o autor, quem se empenha em amar e respeitar-se. Mais ainda. A responsabilidade faz os outros verem o quanto somos amáveis e respeitáveis.