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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Descobrir um autor

Descobrir, retirar o que encobre, levantar a pedra e encontrar o formigueiro, entrar num sebo e escavar, abrir um livro, ou descobrir um autor entre milhares... tudo isso é animador, faz pensar, é terapêutico.

Max Stirner (1806-1856) eu não conhecia, embora tivesse um livro dele perdido entre minhas estantes: O falso princípio da nossa educação (Editora Imaginária, 2001). Insatisfeito com os modelos educacionais vigentes em sua época, propõe que o Saber morra e ressuscite como Vontade, e esteja a serviço da personalidade criativa de cada indivíduo.

O livro que fundamenta suas ideias é O único e a sua propriedade, publicado em 2009 pela Martins Fontes. Acusam-no de niilismo, de um egotismo exacerbado. Nietzsche inspirou-se nele. Não precisamos desprezá-lo nem idolatrá-lo. Sorver de suas ideias o que nos ajude a "tocar" a vida. A vida intangível. Projetar e projetar-se. Se há o não verdadeiro (das Unwahre) com relação à educação, é porque temos o dever de encontrar o princípio verdadeiro...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Baudrillard terapeuta

É terapia não entender direito. Quanto entendemos tudo... péssimo sinal! Não entender significa que estamos a caminho, que ainda vamos entender. Ou não. Que no mundo há mais beleza, inteligência e mistério do que podemos reunir em nossas mãos.

Não entender um autor é bom. Jean Baudrillard (1929-2007) incomoda, ultrapassa modas, corda que enforca e me puxa do buraco. Na Idade Média, o mundo se equilibrava entre Deus e o demônio. Na Idade Mídia, entre o excesso e a falta, o consumo e a denúncia, entre o medo e a anestesia.

Baudrillard, um novo Nietzsche. O pensador alemão foi dinamite no fim do século XIX. Sua força arrasou quarteirões. Baudrillard, dinamite no fim do século XX. Vamos ver os estragos que ainda fará. Os bons estragos.

São dele essas palavras: "O crime perfeito, o único, é o suicídio. Porque é o único e sem apelação, ao passo que o assassinato deve se repetir sempre. Porque realiza a confusão ideal do carrasco e da vítima."

Quem tiver ouvidos para entender... não entenda!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Cirurgias arriscadas

Nem toda a cirurgia é bem-sucedida. As mãos do escritor podem deixar o leitor mais confuso, mais desarvorado. Meu primeiro encontro com Nietzsche foi assim. Ele é um excelente cirurgião, mas perigosíssimo.

Lembro-me que li inadvertidamente, com meus 17 ou 18 anos, Genealogia da moral. Um terremoto. Passaram-se 30 anos, e Nietzsche para mim, hoje, é muitas vezes bálsamo. Naquela altura, porém, vivendo um cristianismo ingênuo, e sem o preparo necessário, senti minhas entranhas se contorcerem.

Foi uma cirurgia invasiva demais, para arrancar um tumor que eu não tinha. Perdi muito sangue, precisei, depois, de outras cirurgias reparadoras.

No final deu tudo certo, mas esse é um aspecto da terapia literária ao qual precisamos dar atenção. Sobretudo quando se acredita que somos aquilo que lemos... e que lemos aquilo que somos.