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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Marteladas filosóficas

Há momentos em que um pouco de iconoclastia não faz mal. Good bye, Platón, de Josep Muñoz Redón, é filosofia com marteladas. Um passeio entre pensadores de todos os tempos e estilos, conversando com um e com outro sobre os estilhaços, os fragmentos, os restos.

Em situações de ausência (sem Deus, sem trabalho, sem alma, sem corpo, sem esperança, sem sexo, sem dinheiro, sem poder...), o que pensa quem continua a pensar?

Pois este pensar é terapêutico. E ficar lendo-pensando, em solidão, sem nada. Aquela velha pergunta, lembram-se? Que livro gostaria de ter em mãos se você se visse, de repente, numa ilha deserta? Diferentes náufragos deram diferentes respostas:
  • Chesterton falou em um manual que ensinasse a construir botes.
  • Roland Barthes lembrou-se de Robinson Crusoé... talvez para não repetir as ações do protagonista.
  • Umberto Eco disse que levaria a lista telefônica, para inventar milhões de histórias com todos aqueles nomes.
Eu estou pensando em levar este livro, A ilha deserta, de Deleuze...


sábado, 15 de maio de 2010

Mais humano

O objetivo das terapias é nos tornar mais humanos, desendoidar-nos. A poesia é realista. Roland Barthes afirma que toda a literatura é realista porque sabe algo do ser humano. E algo que a ciência, tão pouco sutil, não consegue discernir.

Reencontrei hoje cedo o poema "Tarefa", de Geir Campos (1924-1999) . Foi terapia. É terapia. Porque me sinto humanizado. Porque a terapia não é egoísmo. Porque o egoísmo endoidece. Porque o nada endoidece. Porque o fruto amargo não é amargo à toa. Porque viver o esquema falso é nosso dia a dia, mas para não endoidecer de vez eu preciso saber que é um esquema falso. E avisar. E aqui está o poema, para quem quiser saborear:

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Direito à ambiguidade

Em algum dos seus textos, Roland Barthes (1915-1980) se refere ao "direito à ambiguidade", direito à variedade de interpretações, às múltiplas leituras. Entre dogmatismo e relativismo, tempo para pensar, rir, poetizar.
Céticos e fanáticos não admitem polifonia de sentidos. Soa-lhes imoral sair dos trilhos. Roland Barthes, olhando enviasado, está prestes a dizer que nunca me viu antes.