Conheci Viktor Salis numa palestra e tenho alguns livros seus. Ouvi-lo é uma terapia. Mestre da arte de viver, publicou sobre o belo, o nobre e o justo. Sua visão é arcaica, no sentido positivo e revitalizador da palavra.
Uma entrevista de Viktor Salis, como aperitivo:
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Um pouco mais de Erasmo
No final da vida, com seus 70 anos bem lidos, Erasmo de Rotterdam ficava repassando as cartas que recebera dos amigos, muitos deles mortos, e às vezes em circunstâncias violentas, como aconteceu com Thomas Morus (1478-1535).Ler uma carta antiga pode ser boa terapia, repensar o passado, revisitar lugares, reconversar. Mistura de nostalgia e saudade (não são a mesma coisa!), e a chance de recompor o todo da vida — analisar e sintetizar a existência.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010
Mais Erasmo
Ler Erasmo e sobre Erasmo. O de Rotterdam. O que amava os livros. O escritor atento. Um tanto elitista. Avesso a conflitos. Harmonizador. Homem do limite. Entre a decadência do final da Idade Média e a impaciência do início do Renascimento. Como faz ver Stefan Zweig, um humanista que fracassou e triunfou.Seu fracasso é terapêutico. Aprendemos que é impossível vencer com palavras a violência, a estultícia, o fanatismo. Erasmo perdeu o jogo. Sua liderança intelectual e espiritual foi substituída pela intolerância de Roma e pela intolerância de Lutero. Aprendamos com ele a perder o jogo.
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sábado, 1 de maio de 2010
Erasmo sem nenhum marasmo
Terapêutico é encontrar um autor com o qual nos identifiquemos, tanto no que diz respeito aos seus textos como no que se sabe de sua vida. Tenho antiga identificação com Erasmo de Rotterdam (1466-1536).
O meu livro Elogio da leitura é uma homenagem (um plágio criativo) ao seu Elogio da loucura. Sinto-me atraído por sua maneira tolerante de ser em meio às tensões intelectuais da época. Imagino ter um pouco do seu espírito. E algumas coincidências são interessantes. Ele foi revisor e tradutor. Eu também. Ele vivia a religião do livro. Eu também. Ele era professor para sobreviver. Eu também.
Erasmo nasceu em 1466, às vésperas de um 1500 cheio de fantásticas e terríveis mudanças; eu nasci em 1962, às vésperas de um 2000 igualmente fantástico e terrível. (Morrerei, então, em 2032, quando tiver os mesmos 70 anos de idade com que partiu desta vida o humanista Erasmo?)
Estou lendo Erasmo de Rotterdam: triunfo e tragédia de um humanista, de Stefan Zweig. Conta-nos Zweig que seu biografado era um ardente e fiel amante dos livros, entre outras razões porque eles não são barulhentos ou violentos.
De fato, a terapia literária é silenciosa. O silêncio livral (que nos livra de tantas prisões) acaba com nossos tédios e marasmos. Silêncio repleto de palavras...
O meu livro Elogio da leitura é uma homenagem (um plágio criativo) ao seu Elogio da loucura. Sinto-me atraído por sua maneira tolerante de ser em meio às tensões intelectuais da época. Imagino ter um pouco do seu espírito. E algumas coincidências são interessantes. Ele foi revisor e tradutor. Eu também. Ele vivia a religião do livro. Eu também. Ele era professor para sobreviver. Eu também.
Erasmo nasceu em 1466, às vésperas de um 1500 cheio de fantásticas e terríveis mudanças; eu nasci em 1962, às vésperas de um 2000 igualmente fantástico e terrível. (Morrerei, então, em 2032, quando tiver os mesmos 70 anos de idade com que partiu desta vida o humanista Erasmo?)
Estou lendo Erasmo de Rotterdam: triunfo e tragédia de um humanista, de Stefan Zweig. Conta-nos Zweig que seu biografado era um ardente e fiel amante dos livros, entre outras razões porque eles não são barulhentos ou violentos.
De fato, a terapia literária é silenciosa. O silêncio livral (que nos livra de tantas prisões) acaba com nossos tédios e marasmos. Silêncio repleto de palavras...
terça-feira, 27 de abril de 2010
Toda leitura é leitura terapêutica?
Será terapêutica toda leitura que mexer na água parada, jogar fora copos rachados, arrumar a cama, trocar a roupa, tomar um bom banho, der um passeio, limpar gavetas, lavar a louça acumulada, tirar a poeira, enfim...
Como aquela frase que li, faz muito tempo, num muro...
Como aquela frase que li, faz muito tempo, num muro...
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Pedofilia e bibliofilia
Se o Vaticano me perguntasse o que fazer para combater a pedofilia dentro da Igreja, eu responderia que poderia combater esse problema com a bibliofilia. Os bispos, se querem formar bem os padres de suas dioceses, têm de propiciar e exigir leitura, propor o estudo como prática real, o amor aos livros (também) como terapia.
É uma resposta ingênua, certamente. E quem sou eu para aconselhar uma instituição com 2 mil anos de atividade? Mas prefiro a ingenuidade às respostas evasivas, maliciosamente evasivas.
A leitura. A sabedoria. A reflexão. A brincadeira com as palavras. Um seminarista que esteja sempre com livros nas mãos não terá tempo para que sua cabeça se ocupe com o que não deve. Um padre com uma boa biblioteca poderá ter muitas noites de prazer literário.
Melhor ser possuído pelo amor aos livros do que pelo fogo da solidão, pela carência afetiva, pela vontade de dominar o mais fraco, de seduzir o menos atento.
Em vários textos e entrevistas, Bento XVI, mesmo quando ainda não era papa, dizia com clareza que "nem todos os que se dizem cristãos o são realmente". Isto supõe pensar num cristão autenticamente cristão, num cristão fiel ao compromisso batismal. Quanto aos sacerdotes pedófilos, podemos dizer algo semelhante: nem todos os que foram ordenados sacerdotes o são realmente.
E que leiam sobre o amor, sobre a dor, sobre os "impossíveis necessários" da vida, e que, leitores compulsivos, cresçam em humanidade, e pratiquem sua catarse na leitura, e busquem a santidade entre as páginas de um Rosa, de um Drummond, de um Shakespeare, de tantos autores que ofertaram generosamente o seu corpo e seu sangue à humanidade inteira.
É uma resposta ingênua, certamente. E quem sou eu para aconselhar uma instituição com 2 mil anos de atividade? Mas prefiro a ingenuidade às respostas evasivas, maliciosamente evasivas.
A leitura. A sabedoria. A reflexão. A brincadeira com as palavras. Um seminarista que esteja sempre com livros nas mãos não terá tempo para que sua cabeça se ocupe com o que não deve. Um padre com uma boa biblioteca poderá ter muitas noites de prazer literário.
Melhor ser possuído pelo amor aos livros do que pelo fogo da solidão, pela carência afetiva, pela vontade de dominar o mais fraco, de seduzir o menos atento.
Em vários textos e entrevistas, Bento XVI, mesmo quando ainda não era papa, dizia com clareza que "nem todos os que se dizem cristãos o são realmente". Isto supõe pensar num cristão autenticamente cristão, num cristão fiel ao compromisso batismal. Quanto aos sacerdotes pedófilos, podemos dizer algo semelhante: nem todos os que foram ordenados sacerdotes o são realmente.
Mas voltemos à bibliofilia como caminho terapêutico. Proponho que os seminaristas e os padres leiam, no mínimo, 8 horas por dia. E que leiam romance e poesia, contos e novelas, teatro e biografias, história e fantasia, não só teologia e filosofia.
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terça-feira, 20 de abril de 2010
O velho Ortega
Ler certos autores meio esquecidos é renovar-se, muitas vezes. O pensador espanhol Ortega y Gasset é um bom e velho desencadeador de ideias. Em seu Meditação da técnica, publicado na década de 1930 na Espanha, e na década de 1960 no Brasil, escreve sobre a vida humana como uma criação literária:
"A vida humana seria então em sua dimensão específica... uma obra de imaginação? Seria o homem uma espécie de romancista de si mesmo que forja a figura fantástica de um personagem com seu tipo irreal de ocupações e que para conseguir realizá-lo faz tudo o que faz, ou seja, é técnico?"Meditar é um "me ditar", um "ditar-me", um ditar a mim mesmo, um falar consigo mesmo... um falar comigo mesmo. Pensar o viver como tarefa, o viver como uma narrativa a criar, frase a frase, verso a verso. E meditar é bem o que Ortega está fazendo nesta foto...
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
Amare et amari
Em latim, amare et amari, amar e ser amado — esta é a "fórmula" da felicidade. Todas as terapias se resumem nisso. Portanto, o melhor remédio, o melhor tônico, a melhor vitamina, o melhor tratamento é deixar-se amar, e aprender a amar.
Literariamente, ler poesia de amor... e fazer poesia de amor:
QUANTO
Eu te quero tanto, você não sabe quanto,
para todos os quandos, em cada canto
do amor.
Eu te vejo pintada em todos os quadros,
eu me enquadro no círculo quadrado
do amor.
Eu te levo, no quarto, no quarteirão,
no quaterno, no quasar, no quamanho
do amor.
Eu te espero para além do enquanto,
encantado por teu encanto, quarado
de amor.
Literariamente, ler poesia de amor... e fazer poesia de amor:
QUANTO
Eu te quero tanto, você não sabe quanto,
para todos os quandos, em cada canto
do amor.
Eu te vejo pintada em todos os quadros,
eu me enquadro no círculo quadrado
do amor.
Eu te levo, no quarto, no quarteirão,
no quaterno, no quasar, no quamanho
do amor.
Eu te espero para além do enquanto,
encantado por teu encanto, quarado
de amor.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
Frases terapêuticas
Pequenas doses verbais atuam terapeuticamente. Frases, aforismos, sentenças, máximas, ditos são capazes de evitar uma dor de cabeça, aliviar uma dor de fígado, ou de alma, cicatrizar feridas, baixar as altas pressões, tratar moléstias crônicas...
Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe...
É impossível desagradar a todos...
As aparências enganam a quem se engana...
Uma consciência limpa... jamais foi usada.
Podemos colecionar essas pastilhas (nem sempre açucaradas), e ir tomando quando necessário. E sempre é necessário...
Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe...
É impossível desagradar a todos...
As aparências enganam a quem se engana...
Uma consciência limpa... jamais foi usada.
Podemos colecionar essas pastilhas (nem sempre açucaradas), e ir tomando quando necessário. E sempre é necessário...
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segunda-feira, 12 de abril de 2010
Medos e conhecimento
Medo azedo, que começa cedo e vai noite adentro, como se cura? Medo de ter medo, medo de não saber falar, cantar, pular, como se cura? Medo de penedo, de cair bêbedo, medo de bicharedo, como se cura? Medo de paralelepípedo, medo de segredo, medo de bruxedo, como se cura? Medo de dedo em riste, medo de folhedo triste, medo até de inofensivo chiste, como se cura?
Todo medo se cura quando se perde o medo do conhecimento — conhecer as horas e suas vírgulas, conhecer as notas musicais, conhecer o pulo do gato e o gosto do vinho, conhecer o tamanho da queda, conhecer as pedras do caminho, conhecer o medo que o prepotente tem de ter dor de dente como qualquer um pode ter um dia... conhecer, em suma, que tudo tem cura.
Até mesmo tem cura aquele medo profundo que há em todo mundo, o medo da coisa mais impura, da mais insana loucura, da mais escura tontura, da mais agoniante afogadura, de tudo o que é censura, baixura, queimadura, medo de tortura, tesoura abrindo a alma da nuca à cintura. Até mesmo tem cura esse medo de tamanha tremedura.
E como se faz esse autoconhecimento?, todos perguntam, morrendo de medo. Não, não é no espelho que eu me conheço, nem pedindo aos outros opinião. É nos livros que eu leio, é neles que eu me conheço, é neles que perco toda a ilusão, tendo consciência da ciência que tenho, tendo uma visão sobre a visão que vejo, escrevendo sobre o que eu leio nas minhas leituras — e esse conhecimento cura!
Todo medo se cura quando se perde o medo do conhecimento — conhecer as horas e suas vírgulas, conhecer as notas musicais, conhecer o pulo do gato e o gosto do vinho, conhecer o tamanho da queda, conhecer as pedras do caminho, conhecer o medo que o prepotente tem de ter dor de dente como qualquer um pode ter um dia... conhecer, em suma, que tudo tem cura.
Até mesmo tem cura aquele medo profundo que há em todo mundo, o medo da coisa mais impura, da mais insana loucura, da mais escura tontura, da mais agoniante afogadura, de tudo o que é censura, baixura, queimadura, medo de tortura, tesoura abrindo a alma da nuca à cintura. Até mesmo tem cura esse medo de tamanha tremedura.Medo se cura com conhecimento do medo, conhecimento do próprio abatimento, conhecimento do açoitamento, de cada momento da vida em seu doloroso andamento, conhecimento das artimanhas, das ciladas, de tudo o que se esconde no quase nada, conhecimento dos outros e, sobretudo, desse outro em que mora o medo, e esse outro sou eu mesmo.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
Terapia, livros e cristianismo
Ler é terapêutico. Qualquer livro pode ser instrumento e caminho para autoconhecimento, descoberta do mundo, revelações, desilusões, novas decisões.
Há um sem-número de livros inspirados pelo cristianismo, sejam ortodoxos, heréticos, superficiais, instigantes, equivocados, geniais... Milhares, centenas de milhares, milhões. Faz dois mil anos.
O cristianismo é terapêutico? Livros inspirados pela vida e pelas palavras daquele homem, daquele estranho e amável homem, daquele piedoso (e irreverente) judeu... podem ser livros terapêuticos.
Um deles é da autoria de um estranho e amável norte-americano, Brennan Manning. Chama-se O impostor que vive em mim (Mundo cristão: 2006).
Não é um livro comum porque é um livro de amor ao impostor. Odiar o impostor que há em mim pode levar-me ao suicídio. Amá-lo, pode levar-me a compreender outras coisas, coisas importantes sobre a realidade, sobre as pessoas, sobre o próprio fundamento de tudo...
Há um sem-número de livros inspirados pelo cristianismo, sejam ortodoxos, heréticos, superficiais, instigantes, equivocados, geniais... Milhares, centenas de milhares, milhões. Faz dois mil anos.
O cristianismo é terapêutico? Livros inspirados pela vida e pelas palavras daquele homem, daquele estranho e amável homem, daquele piedoso (e irreverente) judeu... podem ser livros terapêuticos.
Um deles é da autoria de um estranho e amável norte-americano, Brennan Manning. Chama-se O impostor que vive em mim (Mundo cristão: 2006).Não é um livro comum porque é um livro de amor ao impostor. Odiar o impostor que há em mim pode levar-me ao suicídio. Amá-lo, pode levar-me a compreender outras coisas, coisas importantes sobre a realidade, sobre as pessoas, sobre o próprio fundamento de tudo...
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quarta-feira, 7 de abril de 2010
O caracol
O primeiro aluno da classe, texto de Clarice Lispector, fala de um menino de nove anos extremamente ajuizado, solícito (empresta livros aos colegas da escola, ajuda-os a entender a matéria), cujo segredo é um caracol. Clarice repete que o segredo dele é um caracol, antes de finalmente contar o porquê...
"Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão." (em: Para não esquecer, 1978)
Todo mundo tem o seu caracol. Ou é caracol de alguém. Não é possível ser bom o tempo todo. Alguém tem de pagar pela minha bondade, pela minha correção, pela minha solicitude. Alguém deve ser torturado para que eu continue sendo tão ajuizado. Esta captação de Clarice é certeira. Atinge em cheio a nossa humana condição.
E a terapia literária é isso, um atingir em cheio, um desmascarar, um deixar à mostra os segredos que nos sustentam.
"Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão." (em: Para não esquecer, 1978)
Todo mundo tem o seu caracol. Ou é caracol de alguém. Não é possível ser bom o tempo todo. Alguém tem de pagar pela minha bondade, pela minha correção, pela minha solicitude. Alguém deve ser torturado para que eu continue sendo tão ajuizado. Esta captação de Clarice é certeira. Atinge em cheio a nossa humana condição.
E a terapia literária é isso, um atingir em cheio, um desmascarar, um deixar à mostra os segredos que nos sustentam.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
Osmose livral
Uma forma de terapia literária é expor-se aos livros, sentir seu calor, seus cheiros, deixar-se impregnar da sua presença. Há quem tome banho de sol, banho de lua, banho de espuma, banho de mel, por que não banho de papel? Papel livral.
Entrar numa biblioteca, numa livraria, num sebo, permitir que os livros espiem você, olhem você, observem seus movimentos. Quando você olha, eles fingem que são apenas objetos inertes.
Aprendemos por osmose, deixando que os livros entrem por nossa pele até as entranhas. O que os autores inscreveram ali emite suaves ondas de silêncio. E este silêncio penetra até os ossos, e dos ossos vai ao cerne.
Livros enfileirados, amontoados, empilhados, apertados, desconfiados uns, mimados outros, abusados, apoiados uns nos outros, chorosos, sorridentes, manhosos, prepotentes, todos eles são terapêuticos.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Leitura santa
Na Semana Santa, que leitura santa eu poderia fazer? Ou que livros santos, mesmo sendo igualmente pecadores, eu poderia ler?
Poemas santos, que falem do amor, e do ódio santo? Romances de paixão, que me crucifiquem? Textos santos, se é que existem tantos?
Certamente o Evangelho, que nunca será velho, renovadas cenas de dor e traição, fidelidade e tortura: "Tudo consumado!"
Já sei: a via crucis do livro, carregá-lo dia e noite, sangrando nele para nele encontrar a salvação, o sentido, a palavra certeira: "Tenho sede!"
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terça-feira, 30 de março de 2010
A velocidade poética
Terapia literária pode se fazer com doses mínimas de poesia, que são, em muitos casos, doses imensas.
Funciona assim: você pega um livro de poemas, como os poemas de Manoel de Barros. Abre ao acaso, acreditando nas forças invisíveis e imprevisíveis.
Atinge para curar nosso corpo e nossa alma das falas e falácias que circulam o dia inteiro, entram em nossos pulmões e se instalam em nosso sangue.
Funciona assim: você pega um livro de poemas, como os poemas de Manoel de Barros. Abre ao acaso, acreditando nas forças invisíveis e imprevisíveis.
Então surgem coisas como:
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
E isso atinge o coração, o estômago, os rins, a musculatura das pernas, faz cabelo crescer novamente, interrompe soluço renitente, melhora a visão, elimina o ronco noturno e as tonturas diurnas.
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sexta-feira, 26 de março de 2010
Leitura no avião
Ler no avião, dentro ou fora,
é terapia veloz.
Hora de apertar os cintos,
sentir bem alto o que eu sinto.Decolar, e sem demora,
que muitas nuvens me esperam.
Nesta asa da leitura
atravesso mares, ares.
Meus medos morrem,
no além das alturas.
E eu de novo neste voo
no livro enfim aterriso.
sábado, 20 de março de 2010
Livraria como lugar de terapia
Entrar numa livraria é, em si mesmo, um ato terapêutico. Livros, gente que gosta de livros, gente que trabalha com livros, cheiro de livro, livros em exposição, suas capas, a sensação de que o mundo é feito de palavras.
Pelo menos uma vez por semana, entre numa livraria. Fique ali durante quinze minutos, ou mais. Toque os livros. Leia algumas páginas ao acaso. Visite autores conhecidos. Conheça autores novos.
Não é preciso comprar nenhum livro. Basta ficar ali dentro, na livraria, sentindo a presença dos livros, ouvindo seus chamados silenciosos, sua ânsia de sair dali para conhecer o mundo.
Ao chegar em casa, deixe o livro descansar um pouco, não tenha pressa. Mais tarde, quando vocês dois estiverem juntos e puderem conversar em paz, esqueça de tudo, para lembrar-se do essencial.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Nós, esquisitos?
Capa esquisita, proposta esquisita. Mas ainda mais esquisita é a vida cotidiana. Esquisitices do autor, obcecado por comportamentos esquisitos. Pelo senso de humor, pelas carências humanas, por nossa capacidade de mentir e outras coisas esquisitas.
Ou serei eu o esquisito dessa história? Ou será você? Ou todos nós? Seres esquisitos num mundo estranho. Gente esquisita que corre atrás de livros bizarros. E acredita que estudar a esquisitice é uma forma de encontrar a normalidade...
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segunda-feira, 15 de março de 2010
Poema aos livros quietos
Livros ao redor
crescendo do nada
ou de cada
menor pensamento
calando histórias
cápsulas
do infinito
Livros soltos
no entanto juntos
enxame e bando
de paixões
Livros tantos
no meu ombro
anjos que guardam
e inspiram
domingo, 7 de março de 2010
Quem aprende? Quem ensina?
Uma pergunta que se desdobra: são os livros que nos ensinam ou somos nós que aprendemos com eles?
No contexto da terapia literária: são os livros que nos curam ou somos nós que nos curamos, fazendo uma leitura adequada deste ou daquele livro?
Concretamente, pensando nos clássicos: um Grande sertão: veredas, um Fausto, um Hamlet, uma Divina Comédia... nos curam de nossas loucuras, ou somos nós que desenlouquecemos ao ler os clássicos com a devida lucidez?
No contexto da terapia literária: são os livros que nos curam ou somos nós que nos curamos, fazendo uma leitura adequada deste ou daquele livro?
Concretamente, pensando nos clássicos: um Grande sertão: veredas, um Fausto, um Hamlet, uma Divina Comédia... nos curam de nossas loucuras, ou somos nós que desenlouquecemos ao ler os clássicos com a devida lucidez?
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