segunda-feira, 19 de abril de 2010

Amare et amari

Em latim, amare et amari, amar e ser amado — esta é a "fórmula" da felicidade. Todas as terapias se resumem nisso. Portanto, o melhor remédio, o melhor tônico, a melhor vitamina, o melhor tratamento é deixar-se amar, e aprender a amar.

Literariamente, ler poesia de amor... e fazer poesia de amor:

QUANTO

Eu te quero tanto, você não sabe quanto,
para todos os quandos, em cada canto
do amor.

Eu te vejo pintada em todos os quadros,
eu me enquadro no círculo quadrado
do amor.

Eu te levo, no quarto, no quarteirão,
no quaterno, no quasar, no quamanho
do amor.

Eu te espero para além do enquanto,
encantado por teu encanto, quarado
de amor.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Frases terapêuticas

Pequenas doses verbais atuam terapeuticamente. Frases, aforismos, sentenças, máximas, ditos são capazes de evitar uma dor de cabeça, aliviar uma dor de fígado, ou de alma, cicatrizar feridas, baixar as altas pressões, tratar moléstias crônicas...

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe...

É impossível desagradar a todos...

As aparências enganam a quem se engana...

Uma consciência limpa... jamais foi usada.

Podemos colecionar essas pastilhas (nem sempre açucaradas), e ir tomando quando necessário. E sempre é necessário...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Medos e conhecimento

Medo azedo, que começa cedo e vai noite adentro, como se cura? Medo de ter medo, medo de não saber falar, cantar, pular, como se cura? Medo de penedo, de cair bêbedo, medo de bicharedo, como se cura? Medo de paralelepípedo, medo de segredo, medo de bruxedo, como se cura? Medo de dedo em riste, medo de folhedo triste, medo até de inofensivo chiste, como se cura?

Todo medo se cura quando se perde o medo do conhecimento — conhecer as horas e suas vírgulas, conhecer as notas musicais, conhecer o pulo do gato e o gosto do vinho, conhecer o tamanho da queda, conhecer as pedras do caminho, conhecer o medo que o prepotente tem de ter dor de dente como qualquer um pode ter um dia... conhecer, em suma, que tudo tem cura.

Até mesmo tem cura aquele medo profundo que há em todo mundo, o medo da coisa mais impura, da mais insana loucura, da mais escura tontura, da mais agoniante afogadura, de tudo o que é censura, baixura, queimadura, medo de tortura, tesoura abrindo a alma da nuca à cintura. Até mesmo tem cura esse medo de tamanha tremedura.

Medo se cura com conhecimento do medo, conhecimento do próprio abatimento, conhecimento do açoitamento, de cada momento da vida em seu doloroso andamento, conhecimento das artimanhas, das ciladas, de tudo o que se esconde no quase nada, conhecimento dos outros e, sobretudo, desse outro em que mora o medo, e esse outro sou eu mesmo.

E como se faz esse autoconhecimento?, todos perguntam, morrendo de medo. Não, não é no espelho que eu me conheço, nem pedindo aos outros opinião. É nos livros que eu leio, é neles que eu me conheço, é neles que perco toda a ilusão, tendo consciência da ciência que tenho, tendo uma visão sobre a visão que vejo, escrevendo sobre o que eu leio nas minhas leituras — e esse conhecimento cura!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Terapia, livros e cristianismo

Ler é terapêutico. Qualquer livro pode ser instrumento e caminho para autoconhecimento, descoberta do mundo, revelações, desilusões, novas decisões.

Há um sem-número de livros inspirados pelo cristianismo, sejam ortodoxos, heréticos, superficiais, instigantes, equivocados, geniais... Milhares, centenas de milhares, milhões. Faz dois mil anos.

O cristianismo é terapêutico? Livros inspirados pela vida e pelas palavras daquele homem, daquele estranho e amável homem, daquele piedoso (e irreverente) judeu... podem ser livros terapêuticos.

Um deles é da autoria de um estranho e amável norte-americano, Brennan Manning. Chama-se O impostor que vive em mim (Mundo cristão: 2006).

Não é um livro comum porque é um livro de amor ao impostor. Odiar o impostor que há em mim pode levar-me ao suicídio. Amá-lo, pode levar-me a compreender outras coisas, coisas importantes sobre a realidade, sobre as pessoas, sobre o próprio fundamento de tudo...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O caracol

O primeiro aluno da classe, texto de Clarice Lispector, fala de um menino de nove anos extremamente ajuizado, solícito (empresta livros aos colegas da escola, ajuda-os a entender a matéria), cujo segredo é um caracol. Clarice repete que o segredo dele é um caracol, antes de finalmente contar o porquê...

"Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão." (em: Para não esquecer, 1978)

Todo mundo tem o seu caracol. Ou é caracol de alguém. Não é possível ser bom o tempo todo. Alguém tem de pagar pela minha bondade, pela minha correção, pela minha solicitude. Alguém deve ser torturado para que eu continue sendo tão ajuizado. Esta captação de Clarice é certeira. Atinge em cheio a nossa humana condição.

E a terapia literária é isso, um atingir em cheio, um desmascarar, um deixar à mostra os segredos que nos sustentam.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Osmose livral

Uma forma de terapia literária é expor-se aos livros, sentir seu calor, seus cheiros, deixar-se impregnar da sua presença. Há quem tome banho de sol, banho de lua, banho de espuma, banho de mel, por que não banho de papel? Papel livral.

Entrar numa biblioteca, numa livraria, num sebo, permitir que os livros espiem você, olhem você, observem seus movimentos. Quando você olha, eles fingem que são apenas objetos inertes.


Aprendemos por osmose, deixando que os livros entrem por nossa pele até as entranhas. O que os autores inscreveram ali emite suaves ondas de silêncio. E este silêncio penetra até os ossos, e dos ossos vai ao cerne.

Livros enfileirados, amontoados, empilhados, apertados, desconfiados uns, mimados outros, abusados, apoiados uns nos outros, chorosos, sorridentes, manhosos, prepotentes, todos eles são terapêuticos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Leitura santa

Na Semana Santa, que leitura santa eu poderia fazer? Ou que livros santos, mesmo sendo igualmente pecadores, eu poderia ler?

Poemas santos, que falem do amor, e do ódio santo? Romances de paixão, que me crucifiquem? Textos santos, se é que existem tantos?

Certamente o Evangelho, que nunca será velho, renovadas cenas de dor e traição, fidelidade e tortura: "Tudo consumado!"

(La crucifixion blanche, de Marc Chagall)

Quinta santa, santa sexta, sábado santo, santo domingo, fazer terapia literária, o livro santo é amigo, é inimigo, mata e ressuscita.

Já sei: a via crucis do livro, carregá-lo dia e noite, sangrando nele para nele encontrar a salvação, o sentido, a palavra certeira: "Tenho sede!"

terça-feira, 30 de março de 2010

A velocidade poética

Terapia literária pode se fazer com doses mínimas de poesia, que são, em muitos casos, doses imensas.

Funciona assim: você pega um livro de poemas, como os poemas de Manoel de Barros. Abre ao acaso, acreditando nas forças invisíveis e imprevisíveis.

Então surgem coisas como:



Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.




E isso atinge o coração, o estômago, os rins, a musculatura das pernas, faz cabelo crescer novamente, interrompe soluço renitente, melhora a visão, elimina o ronco noturno e as tonturas diurnas.

Atinge para curar nosso corpo e nossa alma das falas e falácias que circulam o dia inteiro, entram em nossos pulmões e se instalam em nosso sangue.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Leitura no avião

Ler no avião, dentro ou fora,
é terapia veloz.

Hora de apertar os cintos,
sentir bem alto o que eu sinto.

Decolar, e sem demora,
que muitas nuvens me esperam.

Nesta asa da leitura
atravesso mares, ares.

Meus medos morrem,
no além das alturas.

E eu de novo neste voo
no livro enfim aterriso.

sábado, 20 de março de 2010

Livraria como lugar de terapia

Entrar numa livraria é, em si mesmo, um ato terapêutico. Livros, gente que gosta de livros, gente que trabalha com livros, cheiro de livro, livros em exposição, suas capas, a sensação de que o mundo é feito de palavras.

Pelo menos uma vez por semana, entre numa livraria. Fique ali durante quinze minutos, ou mais. Toque os livros. Leia algumas páginas ao acaso. Visite autores conhecidos. Conheça autores novos.

Não é preciso comprar nenhum livro. Basta ficar ali dentro, na livraria, sentindo a presença dos livros, ouvindo seus chamados silenciosos, sua ânsia de sair dali para conhecer o mundo.


Se algum livro conquistar você, compre-o então, tire-o dali, daquela prisão, leve-o para fora, prometa-lhe a leitura mais intensa, leve-o para a sua vida. O livro comprado é mais do que uma nova companhia.

Ao chegar em casa, deixe o livro descansar um pouco, não tenha pressa. Mais tarde, quando vocês dois estiverem juntos e puderem conversar em paz, esqueça de tudo, para lembrar-se do essencial.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nós, esquisitos?

Um livro puxa outro. Um autor nos leva a outro e esse outro a outros. A terapia literária vai por indicação, faro, intuição, risco. Cheguei assim, pulando de livro em livro, ao Esquisitologia, de Richard Wiseman (BestSeller, 2008). Livro para lá de esquisito.

Capa esquisita, proposta esquisita. Mas ainda mais esquisita é a vida cotidiana. Esquisitices do autor, obcecado por comportamentos esquisitos. Pelo senso de humor, pelas carências humanas, por nossa capacidade de mentir e outras coisas esquisitas.

Ou serei eu o esquisito dessa história? Ou será você? Ou todos nós? Seres esquisitos num mundo estranho. Gente esquisita que corre atrás de livros bizarros. E acredita que estudar a esquisitice é uma forma de encontrar a normalidade...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Poema aos livros quietos

Livros ao redor
crescendo do nada
ou de cada
menor pensamento


Livros quietos
calando histórias
cápsulas
do infinito

Livros soltos
no entanto juntos
enxame e bando
de paixões


Livros tantos
no meu ombro
anjos que guardam
e inspiram

domingo, 7 de março de 2010

Quem aprende? Quem ensina?

Uma pergunta que se desdobra: são os livros que nos ensinam ou somos nós que aprendemos com eles?

No contexto da terapia literária: são os livros que nos curam ou somos nós que nos curamos, fazendo uma leitura adequada deste ou daquele livro?

Concretamente, pensando nos clássicos: um Grande sertão: veredas, um Fausto, um Hamlet, uma Divina Comédia... nos curam de nossas loucuras, ou somos nós que desenlouquecemos ao ler os clássicos com a devida lucidez?

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Realidade cura?

Estou lendo homeopaticamente o livro Reality Therapy, de William Glasser, uma nova abordagem psiquiátrica. Sua proposta é que devemos nos preocupar menos com os traumas do passado e as insídias do inconsciente, concentrando-nos em dar conta de nossas legítimas necessidades psicológicas e espirituais.

O ser humano enlouquece, perde o rumo, desumaniza-se, quando não satisfaz duas necessidades fundamentais: amar/ser amado e respeitar-se/ser respeitado.

Glasser desaprova os rótulos "neurótico", "psicótico" etc. Antes de encerrar alguém na jaula de sua doença mental, devemos descobrir como essa pessoa foi irresponsável o bastante para não satisfazer aquelas duas importantíssimas e realíssimas necessidades.

É responsável, afirma o autor, quem se empenha em amar e respeitar-se. Mais ainda. A responsabilidade faz os outros verem o quanto somos amáveis e respeitáveis.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Venceu o entretenimento puro e simples?

Nada contra o entretenimento. A mente exausta necessita. O corpo cansado precisa. Mas às vezes eu me lembro de ter ouvido alguém afirmar, com tristeza: "É... o entretenimento venceu."

E a charge de Verissimo publicada no Estado de S.Paulo de domingo passado, dia 21 de fevereiro, me fez rir desta triste vitória:

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A contribuição única

A antropóloga francesa Michèle Petit escreveu um livro sobre terapia literária, sobre a arte de resistir à adversidade, à falta de sentido, ao sofrimento.

A arte de ler, pela Editora 34. Lançado na França em 2008. A edição brasileira é de 2009.

Numa passagem, a autora se refere àquele olhar petrificado, o olhar perdido em horror no rosto de pessoas traumatizadas. O olhar de pedra. Fixo. Esquivo. Perplexo. Vazio. Colado a um ponto de dor. Jogado no abismo. Inundado de trevas. Queimado e cego.
A literatura pode tocar esse olhar, humanizá-lo, curá-lo. Uma história pode despertar o olhar paralisado, e que ele vislumbre novos caminhos e sentidos, novas saídas, outras possibilidades.

Leio na página 22 a respeito da "contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma."

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Leitura na prisão

Sabemos que ler é uma das melhores formas de fazer o tempo passar. Entramos no não tempo da leitura, relativizando relógios e calendários. Por isso eu compreendo que o político José Roberto Arruda (sem partido) esteja, na prisão, dedicando-se à leitura para passar o tempo.

Minha curiosidade: que livros estará lendo? E serão livros que o ajudarão a pensar na vida? Em si mesmo? No papel que os políticos devem exercer em suas funções de serviço ao país? Estará fazendo biblioterapia o nobre governador?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Leituras carnavalescas

A leitura é o meu carnaval. No carnaval da leitura eu pulo a noite inteira, vou ao desfile dos autores, faço das páginas meu enredo, e nelas faço meu samba, e com elas faço a minha bateria, o meu batuque.

A leitura é a minha fantasia. Meu baile de máscaras, minha chuva de confete e serpentina. Na leitura em clima de carnaval faço com alegria a minha terapia existencial, meu contato com o bem e o mal.

Na Quarta-feira de Cinzas, os olhos inchados de tanto ler, vou me lembrar que do pó da terra eu vim, e a esse pó voltarei um dia. Que a terra seja leve para quem acreditou nos livros. Jejum, quaresma, temperança...

Antes do rito purificador, porém, é só carnaval. Orgia com as palavras, bebendo literatura até cair, gandaia, farra, folguedo, folia, folheando sem parar os mais diferentes livros. Sou carnavalesco na prosa e na poesia!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ler para acordar

Ler para dormir ou para acordar? A leitura pode levar ao sono, se o leitor estiver muito cansado. Mas pode acordá-lo também. Pode despertar sua alma.

Terminei de ler Reading Jesus, de Mary Gordon (Pantheon Books, 2009). Estava precisando de um livro assim, que mostrasse os Evangelhos do ponto de vista de uma escritora. Bem interessante.

Não há questionamentos sobre a historicidade dos textos, porque textos, do ponto de vista do escritor, são sempre verdadeiros. Sua visão é literária, e por isso extremamente realista. As palavras são palavras. Quando Jesus diz, na cruz, "tenho sede", é de sede que se trata, literalmente, ainda que nunca possamos descartar os desdobramentos metafóricos e simbólicos.

E já comecei outro, The element, de Ken Robinson (Random House Mondadori, 2009), sobre a descoberta da paixão, condição necessária para dar sentido à vida.

Se eu quiser manter-me acordado, preciso agora criar uma conexão entre esses dois livros. E, na medida do possível, entre outros que já tenha lido. Tenho sede de livros. A minha paixão, a minha via crucis, para que tudo, mesmo consumido, seja consumado.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sabores terapêuticos

Uma boa alimentação deve nos fazer experimentar o doce, o salgado, o amargo, o azedo, o picante. A leitura também é fonte e ocasião de experiências assim.

Um texto doce, um poema salgado, um conto amargo, um romance azedo, uma novela picante...

Ampliando nossa capacidade de degustar, com sorriso ou cara feia, o perigoso viver.