sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A felicidade entre livros

Estar entre livros. Ter uma biblioteca imensa e viver dentro dela. Ouvir as vozes dos livros. Uma biblioteca é um cemitério ao contrário. Os autores mortos estão vivos. Os autores vivos estão mais vivos, ali, livros vivos.



A felicidade aqui e agora e para além do tempo. Ideia e sonho de Jorge Luis Borges (1899-1986). O paraíso é estar cercado de livros, numa biblioteca infinita. O jovem desenhista argentino Gabriel Caprav (1983-) acertou em cheio. Envolvidos pelos livros, sentimos os efeitos benéficos, terapêuticos, de tudo aquilo que, pulsante, habita milhões de páginas.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Aquelas pílulas de otimismo

Quando comecei este blog, lembrei-me de um livro, Pílulas de otimismo, que havia em casa na década de 70. O autor era padre dominicano do Canadá, Marcel-Marie Desmarais (1908-1994), hoje esquecido, mas com um público considerável entre os católicos de então. E de modo particular no Brasil, onde esteve nos anos 40. Aprendeu a falar o português inclusive.

Numa época em que não havia leituras de autoajuda explícita, a editora Vozes se interessou pela proposta. Foi um sucesso. Em lugar de tranquilizantes, pílulas em forma de texto.

Tenho comigo a 9ª edição (1978) do segundo frasco, ou volume, brincadeira que o tradutor, D. Marcos Barbosa, faz no prefácio. Talvez hoje essas pílulas não tenham muita eficácia. Estamos mais céticos, menos inocentes.

Na página 71, encontro recomendações enérgicas do padre Desmarais para combater o pessimismo, o desânimo, a depressão:

"1. Absorva-se em seu trabalho, principalmente se é delicado e difícil. Estará desviando boa dose de atenção da ruminação das más lembranças.

"2. Em casos extremos, se estiver a seu alcance, mude de emprego, de ambiente, de paisagem. Sim, mude até de cidade. Você enfraquecerá, ou até mesmo destruirá, as associações de imagens que o afligem.

"3. Leia bastante, multiplique excursões e passeios, visite os amigos mais otimistas."

Padre Desmarais tentava desamarrar, desanuviar os corações e mentes dos seus contemporâneos. Entregava-lhes suas pílulas e antídotos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Literatura, vida e saúde


Escrevendo sobre a literatura e a vida, Gilles Deleuze (1925-1995) via o escritor como "médico de si próprio e do mundo" (Crítica e clínica, pela editora 34, em 1997, pág. 13), mas um médico de saúde frágil, submetido às dores, aos sofrimentos humanos.

Há algo de doentio na literatura, como no escritor. Os seres que escrevem e as coisas escritas carregam um pouco, ou um muito, dos delírios, das fraquezas, dos desvios. Mas se trata de criar, de superar-se. Kafka é sinal de que o mundo está doente, mas quando Franz Kafka (1883-1924) retrata o mundo doente pode criar e difundir visão, visão revolucionária, terapêutica.

Escrever é, de certo modo, criar um idioma diferente dentro do idioma, e com esse idioma produzir visões e compreensões. Ler esses novos idiomas — o "kafkiano", o "drummondiano", o "rosiano", o "calviniano"... — requer novas alfabetizações, que ampliam a consciência, melhoram nosso organismo pensante, fortalecendo-nos perante doenças as mais traiçoeiras.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Livros sujos e maculados

O bibliófilo Richard de Bury (1287-1345), bispo e diplomata, escreveu em seu Philobiblon (Ateliê Editorial, 2004) que sua fama de amante dos livros era tão grande que, quando alguém lhe queria  presentear, nem pensava em dinheiro ou joias, mas em "caenulenti quaterni ac decrepiti codices". E o homem vibrava com esses "cadernos imundos e manuscritos decrépitos", onde encontrava beleza e sabedoria.

Mutatis mutandis, é o que acontece quando entramos em sebos e deparamos com livros sujos e maculados, mas nos quais ainda vibram a poesia, a verdade, a intuição, ou até mesmo tiradas de humor e manifestações de bom-senso, que também são coisas preciosas.

A passagem do tempo castiga os livros, sobretudo quando os que estão perto deles não cuidam, não valorizam aqueles bens. Mas para quem conhece o poder terapêutico da leitura é um lufada de ar puro, é um bálsamo, um lenitivo encontrar obras que, cheirando mal ou caindo aos pedaços, guardam ainda sinais de sensibilidade e inteligência.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sentir-se amado e compreendido

Boa parte do sucesso de qualquer terapia está em que o impaciente paciente se sinta amado e compreendido. Não à toa Santo Agostinho (354-430) definiu felicidade como um estado em que a pessoa, amando os outros, se sente pelos outros amada (amare et amari).

É o que está implícito nas palavras que o escritor Alain de Botton (1969-) escreveu em seu twitter faz alguns dias: que ele encontra nos livros amados "um fragmento de mim nas palavras dos outros".

Toda vez que nos encontramos nos outros, sentimos que os outros nos compreendem, ou pelo menos estão aptos a nos compreenderem. Essa percepção desperta esperança, passamos a acreditar um pouco mais neste outro "impossível necessário" da condição humana: ser feliz.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Novos gostos

Ler livros que habitualmente não leríamos. Experimentar novos gostos. Novos gêneros. Não morro de amores por livros de ficção científica, embora tenha gostado de alguns contos de Asimov (1920-1992). Mas faz parte da terapia literária testar novas leituras.

Comecei a ler Neuromancer, de William Gibson (1948-). O efeito é de certo estranhamento, certo desagrado, e também certa familiaridade, porque o autor tem a ver com cinema contemporâneo, com referências tecnológicas que já fazem parte do nosso dia a dia.

O tratamento consiste em ler algo que não leríamos de modo espontâneo, sair do cercado, sair da sintaxe habitual, do vocabulário já conhecido, entrar em novas terras, beber de outras bebidas, degustar outros sabores, mesmo sob o risco dos dissabores, que também contribuem para um dos "impossíveis necessários" desta vida: a sabedoria.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Autoajuda que ajuda de fato

Há livros de autoajuda que mais ajudam o autor do que o leitor. Mas há também uma autoajuda altruísta, capaz de deflagrar, desencadear, "destampar" em nós possibilidades novas.

O livro A guerra da arte: supere os bloqueios e vença suas batalhas interiores de criatividade (Ediouro, 2005), de Steven Pressfield (1943-), nos ajuda de um modo verdadeiro, isto é, desiludindo.

A autoajuda que atrapalha cria ilusões, nos convence de que somos mais do que pensamos ser. A autoajuda que ajuda nos mostra a realidade, os fracassos reais, as limitações reais, o que somos, ainda que não gostemos de ser!

A autoajuda verdadeira tem medo das fórmulas mágicas, do apoio salvador, das vitórias bombásticas, das ideias brilhantes, dos truques, das espertezas. A arte de viver requer profissionalismo, no sentido de que precisamos nos distanciar um pouco desse "eu" nosso, para aprendermos a viver com todo o realismo possível, trabalhando para valer.

Trecho do livro que gosto de reler, e que me ajuda de fato, quando me sinto desanimado: "Eu realmente acredito que meu trabalho é essencial para a sobrevivência do planeta? Claro que não. Mas é tão importante para mim quanto pegar aquele rato o é para o abutre que vejo voando em círculos pela minha janela. Ele está faminto. Precisa de uma presa. Eu também. Termino meus afazeres domésticos. Já é hora. Faço minha oração e parto para a caçada." (pp. 81-82)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ler e liberdade

Heloisa Seixas (1952-), em seu Uma ilha chamada livro (Galera Record, 2009), contos que giram em torno do ler, do escrever e do contar, há uma história sobre o presidiário que descobriu uma forma de libertar-se. Lendo.

A autora visitou o presidiário, José, náufrago da existência:

"Ele sorria, sereno, enquanto me contava sua história. José foi condenado a vinte anos de prisão. Bateu um desespero, precisava fazer alguma coisa, disse. E foi assim, por puro horror, que abriu um livro. Antes, lia mal, quase nada, juntava uma palavra a outra com dificuldade. E foi com dificuldade que começou, atravessando as primeiras páginas ainda como se nadasse. Não sei que livro foi, isto ele tampouco me contou. Mas sei que uma centelha brilhou e José foi em frente, atraído por aquele farol. Leu, leu e leu. Leu tanto que quis dividir a sensação com os outros, e passou a emprestar livros, a andar pelos corredores de cela em cela com um carrinho cheio deles. O homem-livro, o homem-biblioteca." (pág. 38)

O homem-livro será um homem livre, mesmo que não esteja atrás das grades. Ler um livro para se ver livre. Ver para além do livro para encontrar a liberdade de movimentos interior. Abrir um livro, abrir a porta da cela.

Leitura tudo cura

Leitura cura tudo. É bom para tudo, tudo ajuda, faz de tudo.

Trabalha todas as dimensões intelectuais. Exercita a atenção, a memória recente, a conexão entre fatos e experiências passadas, a linguagem, a imaginação, a capacidade de prever, a capacidade de interpretar, a intuição.

A leitura nos cura do dogmatismo e do ceticismo, do medo e da temeridade, do sentimentalismo e da insensibilidade, da falta de assunto e da verborragia, da indecisão e do fanatismo, da arrogância e da timidez.

Leitura faz bem para os músculos, para os ossos, para os olhos, para os ouvidos, para a queda de cabelo, para os rins, para os intestinos, para as juntas, para as costas, para as pernas, para os pés, para as mãos, para os dedos, para as unhas, para tudo.

Ler resolve problemas de visão, de solidão, de falta de recreação, de impotência, de sonolência, de implicância, de amargura, de cabeça dura, de alergia a fritura, de incultura, de postura, melhora a temperatura, aumenta a estatura, cola as fissuras, cura qualquer gastura, queima todas as gorduras.

Durante a leitura o leitor esquece as torturas da vida, recupera o amor à vida, dá vida a novas idéias, revive vidas passadas, prevê vidas futuras, comunica vida à vida mesma.

A cada leitura o leitor sai de si, reencontra-se, dá a volta ao mundo, mergulha oceanos, perfura a terra, entra em órbita, engole nuvens, desafia o Sol, abraça a lua... E tudo isso sem sair do lugar.

O leitor que lê bebe o leite, bebe o vinho, bebe o café do vizinho, bebe a cerveja, bebe de todos os rios, bebe sicuta, bebe uísque, bebe muito, bebe e cala, bebe e ouve, bebe tudo e continua sóbrio.

Leitura, sobretudo, é remédio para todos os males.

Cura dor de cotovelo, dor aguda, dor cansada, dor surda, dor crônica, dor romântica, dor poética, dor dramática, dor trágica, dor da mente, dor demente, dor da alma, dor de barriga, dor de cabeça, dor de dente, dor de peito, dor que nada respeita, dor difusa, dor confusa, dor fantasma, dor fina, dor grossa, dor incausada, dor ousada, dor para todos os gostos e lamentos.

Leitura cura tudo. E, claro, cura até mesmo o maior de todos os problemas. Cura a própria falta de leitura! Quem lê torna-se incuravelmente leitor.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ressaca de leitura

É possível pensar que alguém caia na ressaca de tanto ler? Alguém com olhos de ressaca por ter passado muitas horas lendo desbragadamente? Uma ressaca literária? Depois daquela bebedeira com Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond, Proust, Dostoievsky, Thomas Hardy, Balzac... bebidas nacionais e estrangeiras!? Um grande porre, um porre de palavras, metáforas, diálogos, sentimentos extremos, ironia, descrições, mergulhos na alma humana??!! Vômito dantesco, náusea sartreana, dor de cabeça cabralina??!!

Os grandes bebedores de leitura afirmam que o melhor remédio é... ler mais. Ofereço uma receita para os que esperam embriagar-se:

Receita para curar ressaca literária

1 parágrafo de crônica de Fernando Sabino
3 frases (de sopa) de José Saramago
2 poetas ao gosto
4 fatias de Houaiss
3 pensamentos esparsos de Heráclito
Adélia Prado moída na hora

Misture todos os ingredientes num copo de espumas flutuantes.
Sente-se da maneira mais confortável.
Sirva-se.
Aos goles.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dia de não ler...

E há aquele dia em que não se lê nenhum livro.
Nenhum jornal.
Nenhuma linha de texto algum.
Nada.
Os olhos passeiam por aí.
Fazendo do mundo um livro.
Um livro de muitas ilustrações e infinitas vozes.
As pessoas se tornam personagens.
As ações cotidianas, metáforas vivas.
Os pensamentos esparsos atuam como narrador.
A respiração é poética.
As tragédias estão nas ruas.
As comédias em todas as esquinas.
Comer o mundo com os olhos.
A leitura do real é também uma real leitura.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Livros descomplicadores

Uma leitura descomplicadora não é simplista. A simplicidade a que me refiro faz da complexidade um caminho com maior clareza. A simplicidade não elimina paradoxos, coisas absurdas e incertezas. Mas faz com que aceitemos como reais, e de certo modo belas, as incertezas, as coisas absurdas e os paradoxos.

Leio "Texto livre", do escritor Bernard Friot (1951-), que está no seu livro Histoires pressées. Um texto descomplicador exemplar:

Domingo, fui na casa do meu tio e da minha tia. A gente comeu frango com batata frita. Depois a gente foi no zoológico e a gente viu o tigre na jaula. Que dia legal!

Segunda, fui na casa do tigre. A gente comeu o meu tio e a minha tia com batata frita. Depois a gente foi no zoológico e a gente viu o frango na jaula. Que dia legal!

Terça, fui na casa do frango com batata frita. A gente comeu o tigre. Depois a gente foi no zoológico e a gente viu o meu tio e a minha tia na jaula. Que dia legal!

Etc.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Abrindo as cortinas

Como descortinadores, os livros abrem nossa visão para novos palcos, para dimensões ainda não visitadas.

A sempre sugestiva analogia entre leitura e viagem. Embarcado no livro, posso sobrevoar minhas circunstâncias, vê-las incluídas num panorama mais vasto e mais complexo. Perdem sua imediatez. Descortino a relatividade do que me assusta, a relatividade de minhas urgências. Ou descubro novas urgências.

O cientista Richard Feynman (1918-1988) pensava que o papel de um educador, de um comunicador, de um cientista também, é o de ensinar maravilhas. Etimologicamente, "maravilha" é tudo aquilo que miramos com os olhos arregalados, querendo que beleza e conhecimento entrem em nós aos borbotões. Abrimos a boca, os braços, o coração.

Uma leitura maravilhosa abre as cortinas e renova a nossa visão de mundo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Desencadeadores, descortinadores, descomplicadores

Os livros podem atuar como desencadeadores e/ou descortinadores e/ou descomplicadores.

Vejamos primeiramente sua ação como desencadeadores. Uma história, ou uma metáfora, ou um diálogo fictício, ou uma rima podem retirar o cadeado. Admitamos: linhas de raciocínio, disposição para certas descobertas, processos emocionais estão encadeados dentro de nós. Tais cadeados podem e devem ser abertos.

Franz Kafka (1883-1924) escreveu no seu Diário: "Tu és a tua própria lição de casa". Dizia isso a si mesmo, mas eu assumo a sua voz e repito a frase para mim mesmo. Eu sou a minha própria lição de casa. Vou, a cada dia, decidir que tarefas essenciais devo realizar. Que objetivos existenciais preciso atingir.

É claro que há um preço a pagar nisso tudo. Se eu for a minha própria lição de casa, não terei como acusar os outros dos meus fracassos. Está aí uma frase que desencadeia processos de amadurecimento.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Remédio de presente

Na festa de Natal, meu amigo secreto (ou oculto, como se diz no Rio de Janeiro) recebeu remédio de presente. E este é outro aspecto da terapia literária. Podemos ser (perigosamente) médicos dos outros.

Minha pretensão, e este é o critério, foi oferecer-lhe uma leitura à sua medida, que não lhe seja estranha, mas também uma leitura que possa atuar como "desencadeador" de possibilidades criativas: Mentes que mudam, de Howard Gardner (1943-).

Veremos, ao longo do ano, se fiz um bom diagnóstico.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Posologia

A posologia, em termos de terapia literária, ocupa-se da dosagem: quantos livros, e quanto de cada livro, e com que frequência deve ser feita tal ou qual leitura.

Uma forma de assimilar vários livros ao mesmo tempo é ler algumas páginas de diferentes títulos ao longo do dia. Há quem seja organizado o bastante para estabelecer a hora da leitura diária e leia 1 a 2 livros por mês nesse esquema. Mas também é possível que um livro de 200 e poucas páginas seja lido em 4 ou 5 dias, se a pessoa dispuser de tempo e vontade.

Numa certa época da minha vida, eu destinava 10 minutos diários a ler determinado livro, sem prejuízo de outras leituras simultâneas. Mas aquele dos 10 minutos, dependendo do número de páginas, podia acompanhar-me durante 3 semanas, ou 1 mês, ou 1 mês e tanto.

Terapia literária tem muito de automedicação. Liberdade, risco, descoberta, surpresas, e casos de overdose!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Leituras para a ocasião

Leitura a todo o momento, mas há momentos que podem inspirar certas leituras. Resgatei hoje das minhas estantes dois pequenos livros de um grande pensador católico: Hans Urs Von Balthasar (1905-1988).

Ele amava a literatura, escrevia sobre estética teológica e, entre outros gênios, conhecia por dentro Kierkegaard e Bernanos. É, a meu ver, um autor confiável em tempos de teologia rasa e chutes autoajudísticos.

Os dois livros são Quem é cristão? (Ed. Cristão Novo Século, 2004) e Meditar como cristãos (Ed. Santuário, 2004).

Preparativos (exercícios) para o Natal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As três dimensões

De maneira muito breve apresentei as três dimensões da terapia literária. A dimensão preventiva: a leitura prepara, fortalece... A dimensão medicativa: a leitura cura... E a dimensão cirúrgica: a leitura intervém.

Terapia sujeita a falhas, como toda terapia. Ler é ótimo, é saudável, é tonificante, é humanizante. Mas nada disso é garantia absoluta de coisa alguma. Nada de panaceias.

Leio nos jornais: um rapaz de 21 anos, em plena Livraria Cultura do Conjunto Nacional (SP), foi agredido ontem e está muito machucado, em estado grave. O agressor chegou, atacou-o pelas costas com um taco de beisebol, e saiu andando como se nada tivesse feito. É o mesmo homem que, no ano passado, quebrou uma vitrine e um aparelho de tv dessa loja, na Avenida Paulista.

É pessoa desequilibrada, obcecada por livraria. Em seu depoimento na delegacia, disse ser leitor assíduo de Platão e da Bíblia. Certamente esses remédios literários nada podem fazer, ou até podem agravar a sua perturbação mental...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cirurgiã Lispector

Nós somos aquilo que lemos, e lemos aquilo que somos. Os escritores que aceitamos como cirurgiões nossos são decisivos (incisivos!) para a nossa formação... ou deformação.

Seja como for, temos de escolher. E, escolhendo, somos de certo modo escolhidos. Trata-se de um encontro, de uma experiência bidirecional. Clarice Lispector (1920-1977) me escolheu quando eu a escolhi.

E ao longo desses últimos trinta anos ela operou várias vezes em mim. Um cirurgião-escritor atua como escultor. A cirurgiã Lispector atuou sobre meu vocabulário. Habilitou-me a não estranhar as estranhezas do ser humano. E transplantou Macabéia para dentro de minha visão de mundo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Cirurgias arriscadas

Nem toda a cirurgia é bem-sucedida. As mãos do escritor podem deixar o leitor mais confuso, mais desarvorado. Meu primeiro encontro com Nietzsche foi assim. Ele é um excelente cirurgião, mas perigosíssimo.

Lembro-me que li inadvertidamente, com meus 17 ou 18 anos, Genealogia da moral. Um terremoto. Passaram-se 30 anos, e Nietzsche para mim, hoje, é muitas vezes bálsamo. Naquela altura, porém, vivendo um cristianismo ingênuo, e sem o preparo necessário, senti minhas entranhas se contorcerem.

Foi uma cirurgia invasiva demais, para arrancar um tumor que eu não tinha. Perdi muito sangue, precisei, depois, de outras cirurgias reparadoras.

No final deu tudo certo, mas esse é um aspecto da terapia literária ao qual precisamos dar atenção. Sobretudo quando se acredita que somos aquilo que lemos... e que lemos aquilo que somos.