sábado, 26 de dezembro de 2009

Desencadeadores, descortinadores, descomplicadores

Os livros podem atuar como desencadeadores e/ou descortinadores e/ou descomplicadores.

Vejamos primeiramente sua ação como desencadeadores. Uma história, ou uma metáfora, ou um diálogo fictício, ou uma rima podem retirar o cadeado. Admitamos: linhas de raciocínio, disposição para certas descobertas, processos emocionais estão encadeados dentro de nós. Tais cadeados podem e devem ser abertos.

Franz Kafka (1883-1924) escreveu no seu Diário: "Tu és a tua própria lição de casa". Dizia isso a si mesmo, mas eu assumo a sua voz e repito a frase para mim mesmo. Eu sou a minha própria lição de casa. Vou, a cada dia, decidir que tarefas essenciais devo realizar. Que objetivos existenciais preciso atingir.

É claro que há um preço a pagar nisso tudo. Se eu for a minha própria lição de casa, não terei como acusar os outros dos meus fracassos. Está aí uma frase que desencadeia processos de amadurecimento.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Remédio de presente

Na festa de Natal, meu amigo secreto (ou oculto, como se diz no Rio de Janeiro) recebeu remédio de presente. E este é outro aspecto da terapia literária. Podemos ser (perigosamente) médicos dos outros.

Minha pretensão, e este é o critério, foi oferecer-lhe uma leitura à sua medida, que não lhe seja estranha, mas também uma leitura que possa atuar como "desencadeador" de possibilidades criativas: Mentes que mudam, de Howard Gardner (1943-).

Veremos, ao longo do ano, se fiz um bom diagnóstico.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Posologia

A posologia, em termos de terapia literária, ocupa-se da dosagem: quantos livros, e quanto de cada livro, e com que frequência deve ser feita tal ou qual leitura.

Uma forma de assimilar vários livros ao mesmo tempo é ler algumas páginas de diferentes títulos ao longo do dia. Há quem seja organizado o bastante para estabelecer a hora da leitura diária e leia 1 a 2 livros por mês nesse esquema. Mas também é possível que um livro de 200 e poucas páginas seja lido em 4 ou 5 dias, se a pessoa dispuser de tempo e vontade.

Numa certa época da minha vida, eu destinava 10 minutos diários a ler determinado livro, sem prejuízo de outras leituras simultâneas. Mas aquele dos 10 minutos, dependendo do número de páginas, podia acompanhar-me durante 3 semanas, ou 1 mês, ou 1 mês e tanto.

Terapia literária tem muito de automedicação. Liberdade, risco, descoberta, surpresas, e casos de overdose!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Leituras para a ocasião

Leitura a todo o momento, mas há momentos que podem inspirar certas leituras. Resgatei hoje das minhas estantes dois pequenos livros de um grande pensador católico: Hans Urs Von Balthasar (1905-1988).

Ele amava a literatura, escrevia sobre estética teológica e, entre outros gênios, conhecia por dentro Kierkegaard e Bernanos. É, a meu ver, um autor confiável em tempos de teologia rasa e chutes autoajudísticos.

Os dois livros são Quem é cristão? (Ed. Cristão Novo Século, 2004) e Meditar como cristãos (Ed. Santuário, 2004).

Preparativos (exercícios) para o Natal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As três dimensões

De maneira muito breve apresentei as três dimensões da terapia literária. A dimensão preventiva: a leitura prepara, fortalece... A dimensão medicativa: a leitura cura... E a dimensão cirúrgica: a leitura intervém.

Terapia sujeita a falhas, como toda terapia. Ler é ótimo, é saudável, é tonificante, é humanizante. Mas nada disso é garantia absoluta de coisa alguma. Nada de panaceias.

Leio nos jornais: um rapaz de 21 anos, em plena Livraria Cultura do Conjunto Nacional (SP), foi agredido ontem e está muito machucado, em estado grave. O agressor chegou, atacou-o pelas costas com um taco de beisebol, e saiu andando como se nada tivesse feito. É o mesmo homem que, no ano passado, quebrou uma vitrine e um aparelho de tv dessa loja, na Avenida Paulista.

É pessoa desequilibrada, obcecada por livraria. Em seu depoimento na delegacia, disse ser leitor assíduo de Platão e da Bíblia. Certamente esses remédios literários nada podem fazer, ou até podem agravar a sua perturbação mental...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Cirurgiã Lispector

Nós somos aquilo que lemos, e lemos aquilo que somos. Os escritores que aceitamos como cirurgiões nossos são decisivos (incisivos!) para a nossa formação... ou deformação.

Seja como for, temos de escolher. E, escolhendo, somos de certo modo escolhidos. Trata-se de um encontro, de uma experiência bidirecional. Clarice Lispector (1920-1977) me escolheu quando eu a escolhi.

E ao longo desses últimos trinta anos ela operou várias vezes em mim. Um cirurgião-escritor atua como escultor. A cirurgiã Lispector atuou sobre meu vocabulário. Habilitou-me a não estranhar as estranhezas do ser humano. E transplantou Macabéia para dentro de minha visão de mundo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Cirurgias arriscadas

Nem toda a cirurgia é bem-sucedida. As mãos do escritor podem deixar o leitor mais confuso, mais desarvorado. Meu primeiro encontro com Nietzsche foi assim. Ele é um excelente cirurgião, mas perigosíssimo.

Lembro-me que li inadvertidamente, com meus 17 ou 18 anos, Genealogia da moral. Um terremoto. Passaram-se 30 anos, e Nietzsche para mim, hoje, é muitas vezes bálsamo. Naquela altura, porém, vivendo um cristianismo ingênuo, e sem o preparo necessário, senti minhas entranhas se contorcerem.

Foi uma cirurgia invasiva demais, para arrancar um tumor que eu não tinha. Perdi muito sangue, precisei, depois, de outras cirurgias reparadoras.

No final deu tudo certo, mas esse é um aspecto da terapia literária ao qual precisamos dar atenção. Sobretudo quando se acredita que somos aquilo que lemos... e que lemos aquilo que somos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Efeitos de uma cirurgia

A boa cirurgia faz com que a pessoa submetida a uma intervenção desse tipo experimente mudanças para melhor. Uma cirurgia bem-sucedida pode fazer alguém voltar a andar, a ver, a viver...

A leitura cirúrgica faz com que a pessoa diga, com estas ou outras palavras: "este livro mudou a minha vida"... "este conto foi importante porque me fez repensar minha atitude perante a vida"... "aquele poema foi decisivo para eu compreender certas coisas"...

É claro que estas declarações têm forte componente subjetivo. E não poderia ser diferente. Uma leitura decisiva para um pode não dizer nada para outro. Uma pessoa dirá que, por exemplo, O diário de Anne Frank mudou sua maneira de ver o mundo. Outra, que abandonou esse livro na terceira página.

Eu tinha uns 16 anos quando li A revolução dos bichos, de George Orwell. Foi uma cirurgia que abriu meus olhos para a realidade política, para os perigos da demagogia, para os bastidores de pretensas revoluções, para os perigos da manipulação linguística. Mais tarde, precisei de outras leituras cirúrgicas, mas esta foi a primeira, e inesquecível.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dimensão cirúrgica da leitura

Conforme postagem do dia 2 de dezembro, iríamos conversar sobre as três dimensões da leitura neste início de reflexão sobre a terapia literária. As dimensões profilática, medicativa e cirúrgica. Sobre as duas primeiras já fiz algumas considerações. Agora é o momento da dimensão cirúrgica.

Há cirurgias de urgência. Há cirurgias arriscadas. Outras, de rotina. Há cirurgias demoradas. Outras, rápidas. A etimologia ensina que a cirurgia é um trabalho manual. Do grego kheirourgía, "ação de trabalhar com a mão". Está aí, na formação da palavra, a raiz grega kheír, também presente na palavra "quiromancia", a arte de adivinhar pela leitura das linhas e sinais da mão.

Que mãos literárias poderão realizar intervenções cirúrgicas em nós? Tomo um livro, mas é um livro que me toma. As mãos do escritor ou da escritora trabalharam no livro. O livro agora é bisturi. No livro recebo a anestesia estética. "Durmo" enquanto leio, e enquanto leio, as palavras atuam dentro de mim. Mexem em mim. Cortam, costuram.

E que tipo de problemas merecem essa intervenção radical? E quantas horas durará a cirurgia? Quantos dias, talvez? O que caracteriza a leitura cirúrgica? Que cirurgiões literários já atuaram em mim? Em você?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Remédio para saudade

A saudade é uma dor causada pela solidão. Etimologicamente, "saudade" remete à soledade de quem viu seu amor partir — e "partir" pode ser ir embora ou quebrar-se...

Para saudade, algum remédio literário? Há uma quadra popular que talvez ajude. Leia duas vezes ao dia até decorar (isto é, até que se torne linguagem do coração, par coeur, by heart):

Saudade, ainda que doa
Tu és nesta vida fugaz
A única coisa boa
De todas as coisas más

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A poesia cura

Recolho no ar palavras do poeta argentino Juan Gelman (1930-):

"Aí está a poesia: de pé, contra a morte. A poesia tem o poder de derrubar os muros das próprias palavras. E mesclar neste plano poético coisas que, na vida, parecem água e azeite."

É terapêutico, penso eu, ver água e azeite misturados, misturar alegria e morte, terror e humor, fantasia e realismo, medo e coragem. E beber essa mistura todos os dias, homeopaticamente.

Todos os dias. Não passar um dia sem ler ao menos um verso. Poesia cura. Cura-nos, sobretudo, do prosaísmo. Essa maneira prosaica de viver, em que o principal critério é o "custo-benefício".

Poesia é "perda" de tempo, pensam os prosaicos. É dessa "perda" que necessitamos, para recuperar o "impossível necessário"...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Remédio contra a loucura

Vários ex-prisioneiros, em seus relatos, atribuem à literatura não terem enlouquecido durante o confinamento físico. O norte-americano Sidney Rittenberg (1921-) é um deles. Viveu 35 anos na China, boa parte desse período (16 anos) preso numa solitária, sob acusação (falsa) de ser espião:

"Na solitária, consegui manter a saúde mental recitando poemas, lembrando de histórias, atuando performances cômicas. A literatura defendeu minha sanidade." (Folha de S.Paulo, 26/10/2009)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dr. William Osler

Um desconcertante aforismo do Dr. William Osler (1849-1919), canadense, pai da medicina ocidental moderna: "Um dos primeiros deveres do médico é ensinar às massas não tomarem remédio."

Dr. Osler preocupava-se com a "educação continuada" do médico num tempo em que esse conceito não estava em voga. Defendia a necessidade de os estudantes dedicarem tempo, não só para o aprofundamento em sua especialidade, mas também na aquisição de cultura espiritual, emancipando-se intelectualmente e aprendendo a refletir com autoconfiança.

Em seu famoso discurso A way of life, de 1913, citando Aristóteles, Goethe, Carlyle, Descartes, Voltaire, e a Bíblia, recomendava aos jovens que não passassem um só dia sem folhearem algo da melhor literatura mundial, e que cada um fosse o seu próprio daysman, o seu próprio árbitro, em busca do aprimoramento pessoal. Cultivava uma postura filosófica e humanista perante a vida e a medicina.

Aquele aforismo revela essa postura. E pressupõe a adesão, mais ou menos consciente, a uma determinada teoria educacional. O médico atua como professor das massas, encorajando-as a repensar o próprio papel do médico. O paciente vem em busca de medicamentos. Um dos deveres do médico é ensinar-lhe que tomar remédios não é o mais importante. Este ensinamento frustra o paciente, subverte sua maneira habitual de avaliar a medicina.

No entanto, se um dos primeiros deveres do médico, ou o primeiro dever, é curar o doente, curá-lo significa também esclarecê-lo sobre a verdadeira função dos remédios. Ou, indo mais longe, fazer-lhe descobrir novos remédios. A leitura, por que não?

sábado, 12 de dezembro de 2009

Remédios literários

Se faz sentido falar em "remédios literários", para que servirão exatamente? Serão substâncias para combater as dores da vida, as doenças oportunistas, aplacar sofrimentos morais? Serão recursos para atenuar os males da vida, eliminar achaques, contornar transtornos?

E quem saberia dizer, para si e para os outros, se tal livro seria adequado ou não para determinado problema? Haverá receitas?

As livrarias são farmácias. A web pode ajudar também. Num caso ou no outro, o bom mesmo é tomar o remédio com as duas mãos!

(Franco Matticchio, desenhista italiano)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Diálogo em silêncio

A leitura medicativa, entre vários benefícios, tem o de nos fazer entrar em diálogo, ainda que sozinhos. A solidão (e, pior, o medo da solidão), ou mesmo, em sentido oposto, a carência por uma solidão qualificada podem encontrar na leitura remédio extraordinário.

A função terapêutica da leitura dialogada. E, também, uma terapia do diálogo, porque muitas vezes a solidão pode ter nascido de uma ojeriza aos diálogos destrutivos, ou aos diálogos anódinos e inócuos, não menos nocivos. A leitura em diálogo nos faz acreditar de novo na palavra (lógos) inteligente, criadora.

A solidão é um bem, se for povoada por pensamentos, imagens, "estalos", que depois transbordarão em comunicação viva e atraente. Qualificamos os momentos ou as horas de solidão, para conversar melhor, e conviver mais humanamente.

Mas leitura dialogada requer empenho, coragem, fôlego, conforme José Ortega y Gasset (1883-1955):

"À leitura deslizante ou horizontal, um simples patinar mental, é preciso substituir pela leitura vertical, a imersão no pequeno abismo que é cada palavra, fértil mergulho sem escafandro."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Leitura das entrelinhas

Mario Quintana (1906-1994), em seu Da preguiça como método de trabalho, escreveu:

"Marcel Proust não tem entrelinhas, explica tudo, sufoca o leitor, não o deixa respirar, não o deixa pensar."
Logo, por oposição, temos aqui algumas características da leitura das entrelinhas: (1) não explica tudo, (2) abre espaços e (3) provoca o pensamento.

Respirar bem faz bem. Respirar o texto. Respirar no texto. Profundamente. Respirar literariamente cura-nos de várias doenças: tédio, obsessões cansativas, desconfianças infundadas (ou mesmo fundadas), medos de várias cores e texturas. No texto, quanto mais amplas as entrelinhas, mais oxigênio para a mente leitora. É um bom exercício não entender tudo. E, não entendendo, ter de inventar/descobrir nexos. Ter de respirar por conta própria.

Outro gaúcho, Fabrício Carpinejar (1972-), assinou "Casa" para o livro Dicionário amoroso da língua portuguesa (Casa da Palavra, 2009), organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá. Um trecho, para nos inspirar:

"Uma casa põe chapéu para não perder mais o guarda-chuva. Uma casa não pode permanecer arrumada, como se estivesse à venda. Uma casa depende de alguma desordem, um atalho, um alçapão para conservar vinhos.

"Uma casa precisa ser estranha por fora e íntima por dentro. Uma casa tem que ter espaço para cuspir neblina, e telhas para derreter queijo na chapa. Uma casa tem que mostrar infiltrações de vez em quando, sofrer gripe, chorar pelas paredes.

"Uma casa coleciona moedas raras com o barulho das calhas. Uma casa sem lagartixas não é ainda uma casa. Uma casa sem baratas é um berço. Uma casa tem que apresentar uma saída pelos fundos, mesmo que seja a janela.

"Uma casa tem que pedir esmolas aos prédios vizinhos. Emprestar sede para a praça." (págs. 24-5)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Da leitura medicativa

Vimos até agora alguns aspectos da leitura como profilaxia. Agora, a dimensão medicativa.

Em seu livro O olhar médico: crônicas de medicina e saúde (Editora Ágora, 2005), Moacyr Scliar escreve sobre literatura como tratamento:

"Literatura serve para muitas coisas. Serve para informar, serve para divertir — e serve também para curar ou, ao menos, para minorar o sofrimento das pessoas." (pág. 153)

"A proliferação das obras de auto-ajuda mostra que as pessoas continuam acreditando em livros como guias para a saúde e para a cura." (pág. 154)

"Toda pessoa se beneficiará do ato de ler e de escrever. É terapia, sim, e é terapia prazerosa, acessível a todos. O que, em nosso tempo, não é pouca coisa." (pág. 155)

É preciso, porém, desenvolver uma alfabetização para as entrelinhas (já dizia Guimarães Rosa), a fim de saber escolher os melhores livros para tais e tais ocasiões, e ler esses livros com proveito máximo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poesia terapia

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) dizia que seu divã era a poesia. Poesia como terapia. As rimas, quando há, mostram que coincidências (sonoras) não são meras coincidências, fruto absurdo do acaso. Existe uma ressonância com sentido. Consentida. Sentida.

Apoio fonético recorrente que mexe com a gente, positivamente. Dose diária de poesia para prevenir carpoptose existencial, para evitar a rinostegnose da alma, para que a tiflose não se instale em nossa mente.

Poesia de manhã, ao acordar. Poesia na hora do almoço, seu moço! Poesia à noite... antes que seja tarde.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Terapia literária e suas fases

Caroline Shrodes é referência necessária para quem quer estudar biblioterapia. Um dos seus ensinamentos: a leitura terapêutica possui pelo menos três fases muito claras, a identificação, a catarse e o "estalo" (insight).

Uma leitura orientadora, equilibradora, vive esses estágios. (1) Identifico-me com o personagem, com a história, com as imagens; (2) participo, sofro, choro, alegro-me, sinto "por dentro"; (3) faço descobertas pessoais.

Os leitores mais jovens, para o bem ou para o mal (e mesmo os não muito jovens...), têm se identificado com Harry Potter (Joanne K. Rowling) e com Bella e Edward (Stephenie Meyer).

Li no ano passado o romance Meninas inseparáveis, de Lori Lansens (Editora Globo), e a uma certa altura chorei bastante ao viver "por dentro" a certeza da morte.

Os "estalos", as descobertas pessoais nascem da leitura criativa, quando um leitor se dá conta, por exemplo, de que certa metáfora é referência direta à sua própria vida. Nesta estrofe de um poema de Miguel Torga (1907-1995) descubro que em minha "mistura" (charco e luar) o baixo e o alto, meus erros e minhas virtudes se encontram e se necessitam:

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura. ("Livro de horas")

domingo, 6 de dezembro de 2009

"A terapia literária consiste em
desarrumar a linguagem
a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos."

São versos de Manoel de Barros (1916-), em Livro sobre nada. Sobre nada, sobre coisas insignificantes aos olhos de alguns, ou aos olhos de muitos. Poesia como algo que vale pouco ou nada vale.

A poesia de Manoel de Barros, olhando melhor, é sobre tudo, é sobre um tudo que não sabemos avaliar. Um nada que faria bem a todos, se todos dela bebessem.

A leitura profilática vai nos ajudando a ver com mais profundidade o que sentimos e pensamos. Os "fundos desejos" são desejos que estão nos fundos, relegados. Fundos também, porque se encontram no fundamento. Que desejos mais fundos serão estes? A linguagem poética traz à tona esses desejos, desejos que estão lá no fundão, desejos fundidos nas funduras da nossa humana condição.