sábado, 5 de dezembro de 2009

Direito à ambiguidade

Em algum dos seus textos, Roland Barthes (1915-1980) se refere ao "direito à ambiguidade", direito à variedade de interpretações, às múltiplas leituras. Entre dogmatismo e relativismo, tempo para pensar, rir, poetizar.
Céticos e fanáticos não admitem polifonia de sentidos. Soa-lhes imoral sair dos trilhos. Roland Barthes, olhando enviasado, está prestes a dizer que nunca me viu antes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Leitura e ceticismo

Leituras que previnem os fanatismos podem ter um efeito colateral: o ceticismo generalizado. Evitemos o engajamento ingênuo, saibamos que chegar a uma verdade é possibilidade remota, vejamos os bastidores. Os bastidores revelam a podridão que as fachadas ocultam. Comentemos criticamente o que os outros pensaram, disseram, escreveram. Mantenhamo-nos longe de utopias...

Desconfiar é saudável... mas a descrença absoluta em valores e princípios pode gerar outro tipo de fanatismo. O antifanático fanático alimenta a ideia fixa de que nenhuma ideia, exceto esta, é plenamente confiável.

O ceticismo pode levar também à melancolia, a um "clima" emocional e intelectual em que as crenças se afundam todas, tenham ou não alguma razão de ser.

Outra decorrência. É quando o cético desiste de ler, pensar, criticar, discutir... atividades sem futuro, e vai se dedicar a alguma aventura prazerosa, radical ou delicada. (O que talvez lhe infunda novo gosto pela vida.)

A contrapartida são leituras que relativizem o relativismo. O livro Nem tudo é relativo, de Hilton Japiassu (Editora Letras & Letras, 2001) puxa o freio antes do abismo, e faz repensar algumas questões atualíssimas, mas clássicas, em torno da busca da verdade.
Seria este livro de Japiassu (existem outros semelhantes) para quem gosta do gênero ensaios. Para quem prefere poesia, eu recomendaria Thiago de Mello (1926-), em particular o de Os estatutos do homem, poema de 1964, que termina assim:

Artigo Final:

Fica proibido o uso da palavra liberdade
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
ou como a semente do trigo,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Leitura e fanatismo

Leitura profilática que nos proteja de fanatismos.

Virginia Woolf (1882-1941) dizia que ler é como abrir uma porta e ver uma horda de loucos atacando nosso corpo em vinte pontos ao mesmo tempo. Ler nos protege de superstições e outras manias mentais. Ler nos pergunta se, afinal, temos ou não convicções. Ler problematiza a vida, apresenta-nos paradoxos, põe à nossa frente contrastes e nuances, nos ensina a perceber ambiguidades e contradições.

Uma leitura que me proteja do fanático que está dentro de mim, pronto para fazer estragos. O fanático tem dificuldade para aceitar o que lhe soa diferente. Não sabe conviver com o contrário. E, simultaneamente, perdendo todo o senso crítico que parecia possuir, tende a cultuar alguma personalidade a seu ver mais bela e mais forte, a canonizar um pensador, um escritor, um artista, um líder religioso.

Eu sou fanático. Reconhecer que sou fanático é a única chance de eu não cair no mais insano dos fanatismos. Vejo em personagens enlouquecidos o fanático que existe em mim. O tresloucado que transita dentro de mim. O obsessivo que habita em mim. O demente que dorme em mim.

Dois livros de Lourenço Mutarelli (1964-) me ajudaram, em leitura recente, a reconhecer a minha insanidade e, constatando-a nas histórias, na ação dos personagens, descobrir que sou potencialmente louco... como qualquer ser humano normal!

O natimorto, e Miguel e os demônios. Ambos pela Companhia das Letras.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A pertinência de uma terapia literária

É pertinente falarmos em terapia literária?

Terapia vem do grego therapeía, e remete a "previsão", "solicitude", "remédio", "tratamento". São vários aspectos do cuidado consigo mesmo e com o outro. Inclui modos de alimentar-se, de comportar-se, medicação (se necessário) ou intervenções mais enérgicas, como a cirurgia.

No plano da leitura, uma terapia teria essas três dimensões:

1. A dimensão profilática — leitura para prevenir, leitura para adquirir um sistema de convicções, leitura como alimentação saudável, leitura para nos vacinar contra equívocos e desesperos, leitura como atividade equilibradora, leitura como orientação existencial, leitura como autoeducação, autodisciplina, autoconhecimento etc.

2. A dimensão medicativa — leitura para combater anemias existenciais, leitura como desinflamadora de incêndios emocionais, leitura para curar dores anímicas, leitura para curar dores de cabeça (ideias fora do lugar), leitura para combater azias crônicas, leitura na hora da febre, leitura para regular as pressões etc.

3. A dimensão cirúrgica — leitura para arrancar tumores da inteligência, leitura para salvar o coração fragilizado, leitura para transplantar órgãos vitais, leitura para recuperar a visão, etc.

Comecemos, amanhã, a falar de leitura profilática.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para começar

"Um homem que lê deveria sentir-se intensamente vivo. O livro deveria ser um bola de luz em suas mãos." (Ezra Pound, em Guide to Kulchur. New York, New Directions, 1970, pág. 55)

Uma epígrafe para começarmos a pensar a terapia literária. O livro, fonte de luz. A luz só se faz quando o homem se sente intensamente vivo, lendo, aprendendo, compreendendo. Luz não é necessariamente paz. Há uma dor na lucidez. Luz pode mostrar coisas boas e coisas más. Mais: as coisas boas podem mostrar seu lado cruel, e as coisas más podem ser reinterpretadas uma e outra vez... talvez.


Obs.: Ezra Pound, poeta e crítico norte-americano, nasceu em 1885 e faleceu em 1972.